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Lana Del Rey - Honeymoon

Drowned In Sound: Review do álbum ‘Honeymoon’

Em uma review publicada no começo deste mês (02 de outubro), o site Drowned In Sound analisou brevemente o novo álbum de Lana Del Rey, Honeymoon. Leia abaixo a tradução da análise:

Querida Lana,

Obrigado pelo seu último contato. Sabendo que você tem 5,7 milhões de seguidores no Twitter e cerca de 12 milhões de fãs no Facebook, eu ainda não consigo acreditar que você escreve diretamente para mim, e só para mim.

Estou muito comovido pelo seu convite para ir para Califórnia. Você o faz soar como algo tão entorpecente quanto o mais profundo sono de Audrey Horne junto à lareira. Mesmo sabendo que os céus são mais azuis que o azul, eu não posso parar de imaginar tudo em preto e branco.

Eu fui realmente impressionado pelo capítulo chamado Art Deco. Eu imagino você à beira da piscina, colocando limonada fresca no meu béquer. Você parece imersa em seu próprio elemento, distorcendo qualquer um dos persistentes preconceitos de que tudo que quer em sua vida é estar na primeira fila de uma Fashion Week. Não sei o porquê de eu já ter achado isso. É claro que você, como ser humano, é muito mais que isso. Talvez essa fosse você em algum ponto, mas você não parece tão preocupada com a fama — e todas as suas armadilhas — como já esteve antes. Estou certo por pensar isso?

Eu estou, de alguma forma, impressionado pela sua habilidade de tornar até mesmo o mais frágil sopro numa textura. Sua forma de se expressar pode se torcer e se balançar, para então se tornar uma neblina de ideias que se dissipam… É como se você tivesse estudado os grandes mestres e conheça todas as nuances das músicas-temas de [James] Bond (eles já te ligarem para falar sobre isso? Será que já esteve na outra linha, conversando com Baz [Luhrmann]?). Mas, ao invés do que aconteceria caso o tivesse feito, o seu trabalho sai sem esforço e tudo parece desafiadoramente autêntico, o que até mesmo me lembra da The xx, que você já deve ter conhecido no Hamptons há alguns anos.

De qualquer maneira, não estou certo sobre sua intenção. Você não ordena que eu fuja com você, mas logo depois diz que podemos dançar rock lentamente…?! E, além disso, você soa muito apaixonada por outra pessoa em outro momento. Um pouco mais tarde você deixa claro que o seu coração, que já resistiu muito, murchou… Eu não consigo dizer se, no momento, você está ou não apaixonada, e nem mesmo se você se tornou agnóstica ao amor. Fica muito claro que você não parece realmente desprezar o assunto, então talvez seja eu que esteja pensando muito nessas observações sutis.

Eu adoro o nosso companheirismo. Eu adoro ouvir seus lançamentos em longas caminhadas, visualizando a mansão vazia numa colina onde você os escreveu. Suas ocasionais cartas a mim não tem sido nada além de charmosas e envolventes. Vou tentar não ler as entrelinhas de sua honestidade e franqueza. É raro para as pessoas falarem tanto sobre si mesmas e sobre as coisas que amam, sabendo que a nostalgia pelo passado pode fazer o presente soar muito mais vívido. Aliás, o seu uso da nossa vida conjunta é maravilhoso. Amo o fato de, com poucas músicas, você exaltar de Sugar Babies à Sugarhill Gang, [Bob] Dylan (acho que você pode preferir essa versão da faixa), Hotel California, [David] Bowie, Billie Holiday e, então, está lendo Burnt Norton, de T.S. Eliot, de uma maneira simplesmente sublime, querida (e acho que é por isso que estava pensando que a sua maneira de ver o “agora” só é possível em detrimento do passado).

Eu acho que o me deixa jogado é o seu próprio poema, Terrence Loves You, em que você diz “Ainda me sinto um lixo, querido, quando escuto suas músicas”, onde eu fico um pouco confuso sobre as suas intenções, mas vou ignorar isso, já que sou terrível com mal-entendidos. Eu gosto de como você me faz pensar sobre os meus velhos amigos Mercury Ver, quando você posiciona imagens acima das ideias, como um brilhante véu branco atrás de uma janela suja. Outras vezes você me lembra da minha querida Marissa Nadler, na maneira em que você transforma sua tristeza numa fenda monótona, mas transcendental.

Divagando… Desde as suas cartas eu venho repensado a ideia do hip-hop como um tipo de música folk urbana. Você deixou claro que podemos criar nossa própria soundtrack, a encaixando no mundo em que vivemos ou flutuando além dele.

O jeito em que você migrou da costa oeste de High Society à Grey Gardens sempre me deixou maravilhado. Essa noção de glamour destruído também me fez pensar sobre o sonho americano, o que me leva ao ponto do que queria dizer para você…

Já tem um tempo, o sonho Americano vem carregando uma grande sedução. Não só para vocês, americanos, mas para todos no mundo. Mesmo se este fosse sobre trapos, sobre o sucesso dos ricos, sobre comer glórias nova-iorquinas no The Fonz ou na liberdade de ter uma arma numa terra onde não há chance de guerra, sua idéia do sonho parece ser frustrante, mas emocionante ao mesmo tempo.

Para mim, o sonho Americano era o californiano, mas ele é muito diferente do seu. Crescendo com Epitaph, os cassetes anti-capitalistas da Fat Wreck Chords e os X-Games gravados em VHS, era um sonho onde você poderia surfar de manhã, andar de bicicleta numa montanha à tarde e então se encontrar com o Johnny Depp no pôr-do-sol, bebendo até o dia amanhecer. Então eu li Medo e Delírio, no tempo em que Paris Hilton e Teenage Dirtbag eram o assunto da cidade e Los Angeles se turvou com Las Vegas, fazendo sua tão comentada América parecer apenas como algo não inteligente e até mesmo indulgente consigo mesma. A opulência parecia refletir o narcisismo.

A minha visão de The Blackest Day é a que você não admira a América a todo tempo. E, então, parece que você fechou as cortinas e que agora se balança sozinha num mundo só seu. Lembre-se de que ninguém é uma ilha, mas pela maneira com que se comunica, eu sinto que você e FKA twigs seriam maravilhosas ilhas vizinhas. Suas tribos provavelmente se dariam muito bem. E, com o capítulo intitulado Music To Watch Boys To, estive pensando que a ilha de Julianna Barwick estaria logo perto da sua, como um vulcão dormente surgindo de uma névoa distante.

Acho que o tento dizer é sim, sim, e muito obrigado. Seus contatos anteriores foram ótimos para que eu mergulhasse, mas com esse eu alcancei o fundo do oceano. Você encontrou o seu próprio estilo e o domina. É incrível ver uma pessoa tão livre e no controle de si mesma.

Eu te desejo toda a sorte do mundo e espero te ouvir novamente.

Literalmente seu,
Terrence.

Tradução por Lucas Gonçalves. – Equipe Lana Del Lovers
Review original por Drowned In Sound.