Lana Del Lovers
Lana Del Rey - Grazia (2015)

Grazia: Lana Del Rey fala sobre o álbum ‘Honeymoon’, inspirações, suas músicas e muito mais

Em entrevista concedida à edição de setembro da revista Grazia, Lana Del Rey falou sobre suas inspirações, Honeymoon, músicas e muito mais. Leia abaixo a tradução da entrevista:

Alguma vez você já sentiu esse sentimento de estar apaixonado, que te deixa com um frio na barriga, faz você virar do avesso e deixa você sentindo-se desorientado e perturbado, um pouco perdido, sem saber muito bem onde colocar o que mantém você, o que o envolve, e que faz você ficar bêbado e petrificado ao mesmo tempo?

Um sentimento que muitas vezes aparece quando você sabe que está apaixonado e que você vê, ao mesmo tempo, o objeto deste amor escapar. Isto é exatamente o que assombra cada canção que Lana Del Rey serenamente põe para fora há vários anos, desde o momento onde seus primeiros sucessos, Video Games ou Blue Jeans, apreenderam um publico a não deixá-lo ir, levando-o ao coração dos romances compostos por esta jovem senhora de 30 anos em um computador temporário, mas nutrido por uma escrita que incessantemente mistura ficção, realidade e autobiografia, sem nunca revelar-se completamente.

Desde Video Games, cada uma das letras e notas que compõem todas as canções de Lana falam e evocam somente isso: histórias de amor apreendidos em momentos singulares — um início dos sonhos, um final terrível. Mas nunca o meio de uma história, quando as tensões (sexuais, românticas, intelectuais) são aliviadas ou estão a caminho de desaparecer. Em suas canções, sua voz interpreta, ficando sempre no ponto mais alto de paz, mas oscilando entre a absoluta felicidade de saber o que isso é, e a absoluta depressão ao se ver confrontada a impossibilidade dos laços que ela canta. A voz de Lana flerta com o mistério e o que é inexplicável — nela ou na gente?

Em meados de verão, ela lançou, como introdução de seu novo álbum, um punhado de faixas que se respondem, brincando com esses mesmos sentimentos. A primeira, Honeymoon, parece ser o embrião de uma história, um laço ainda cheio de ilusões, romances, desejos e cegueira — “Nós fazemos as regras”, ela canta, endereçando-se a outro, um amante, como um eco até uma sinopse muito romântica. O mundo é nosso, diz ela. No entanto, a música lançada algumas semanas mais tarde, High By The Beach, diz exatamente o contrário. Ela explora o fim de uma relação, a dispersão do amor e a solidão que surge a seguir. O desejo de solidão é maior que tudo no momento em que se cansou do outro. Destruir, diz ela. Em poucas palavras, ela diminui o desprezo que prendeu aquele, ele, ela, não ama mais. Será que ela viu Jean-Luc Godard? Ela estava pensando em Bardot em Le Mépris [O Desprezo, título em português]? Com Lana, nada surpreende, principalmente no que toca a referências europeias, os laços que se interceptam com outras artes, além da musica, começando pelas imagens, o cinema.

Finalmente, a terceira faixa revelada no final do verão, a sua favorita ao que parece, se junta como um íntimo post scriptum [P.S.], dando uma nova perspectiva para a história esboçada nas duas faixas anteriores. No coração desta canção, Terrence Loves You, ela canta esta frase, tão clichê outrora, mas tão pungente em sua boca: “Eu me perdi quando eu perdi você”. E, para voltar às coisas que ela própria pensa, no mesmo fôlego, esta outra frase, “lendas de Hollywood nunca envelhecem”, que diz muito sobre a sua obsessão: as lendas, o glamour, a mítica Los Angeles dos anos 50. E se Lana, em 2015, é um eco do que Billy Wilder teria filmado em Sunset Boulevard [Crepúsculo dos Deuses, título em português]? A própria representação do que significa ser um ídolo, em sua beleza monolítica, sua errática, suas contradições e sua fragilidade inerente. E se Lana for a última dessas mulheres que fizeram Hollywood? E se Lana, mais do que uma cantora, for uma atriz, a última das atrizes míticas de Hollywood?

Ser Lana é algo que amamos e odiamos ao mesmo tempo. Suas letras podem expressar, sem dúvida alguma, alguém que não te ama o suficiente, ou a nós mesmos, a vergonha dessa vulnerabilidade. Ela é essa mulher-vítima e ainda assim amante, que era odiada por nós ou que nós procuramos nos outros, alguém como ela, seja por tédio, ou por buscar algo mais eletrizante em outro lugar. “Eu busco vencer a morte”, ela disse. Ela condensa a alquimia perturbadora do livro Blonde, de Joyce Carol Oates, que nós amamos odiar — ela sabe que não pode viver sem as emoções e os homens. Ela tem essa coisa intrinsecamente antifeminista e feminista ao mesmo tempo. Sem dúvida que Lana escolheu estar no lugar de uma pin-up distorcida, de uma Marilyn [Monroe] em mini-shorts rasgados, e finge, sem qualquer constrangimento, sua falsa imbecilidade. Ela se ergueu uma imperatriz solitária de um reino de romantismo abandonado, vítima de sua aparência que esconde uma inteligência afiada, sensível à situação das mulheres com seu coração pesado e seus grandes lábios. Ela tem a humildade de debochar de sua própria loucura, canta Born To Die por ironia, enquanto seus clipes são vistos mais de cem milhões de vezes. Nós somos sempre os instigadores de nossas próprias paixões, nós decidimos sempre nos afundar na tempestade, nos deleitamos para melhor nos sentirmos vivos. Isso é o que sempre nos lembra Lana. Cobaia autoproclamada, ela se entrega completamente para descobrir algo novo para a humanidade, ela está experimentando a paixão com a obsessão de um cientista.

A cada álbum, o vício em descobertas se expande. Houve o amor à nicotina, o amor à morte e a grandes motos (Born To Die), o compromisso sombrio e desiludido (Ultraviolence). No clipe de High By The Beach, ela é Gena Rowlands [atriz estadunidense], sozinha face à masculinidade, perto de uma crise de nervos em seu roupão verde desbotado. Não há mais o homem, ele não é mais que um helicóptero que ela termina por erradicar em tiros de grosso calibre, jogando com uma arma de dois gumes, a violência e o grotesco. Uma hipótese: Lana tem podado gradualmente cada um de seus discos para enfrentar uma verdade tão irremediável quanto terrível — quando se é um amante do amor, você nunca vive nada plenamente além do princípio e do fim.

Lana abre um espaço vasto, febril e infantil, aquele que nós segredamos em silêncio quando chega aquele amor desordenado. Ela é todos esses anúncios em prédios, essas estradas e painéis que cruzamos sem ver por estar com borboletas na barriga, a ponto de cair, pensando apenas em um amor e em canções dela que o ecoam. Essas linhas cinzentas das ruas e pessoas sem forma, e nós no meio, doentes e prestes a explodir de amor, as canções dela no fone de ouvido — necessariamente na cabeça, onde a intimidade se desenvolve melhor.

Não há mais épocas marcantes e não, Lana Del Rey não pertence a nenhuma, ela oscila entre os caricaturais anos cinquenta e a pin-up do gueto, citando tanto Elvis [Presley] quanto A$AP Rocky. Pois neste mundo guiado pela emoção, não há mais, de certa forma, uma temporalidade ou gênero. O que importa definitivamente é apenas uma coisa: a busca do amor perfeito. Aquele que entra em colapso sobre si mesmo perpetuamente. Lana fala sobre isso e inventou um habitat sublime para pessoas muito inseguras, com quem ela compartilha todo o seu neorromantismo que não se encontra mais no abismo de sexo casual e de SMS com emoticons (apenas algumas pessoas, alguns amigos, não mais que isso).

Ela está nessa área onde estão nossos sentimentos mais exacerbados, em nossas noites cheias de álcool e a esperança de um sentimento de que poderia finalmente resolver tudo. Ela é a taça de vinho branco, de vinho tinto, de vinho muito tinto, que nos faz tombar de amores. Graças a ela, este amor final e perdido em uma sociedade carente de poesia se torna novamente possível, ele reencontrou seu brilho. Também nos agarramos febrilmente, nos mesclamos a Lana. Uma mulher mitológica de unhas bem cuidadas que consegue manter o fluxo sanguíneo de tudo o que nos faz sentir vivos por um dia ou outro — ela busca morrer e renascer nova e melhor. E escreve histórias que valem a pena serem contadas, amores que valem a pena serem vividos, mesmo que no intervalo de um olhar.

Em que estado de espírito você gravou este novo álbum?

Eu comecei a gravá-lo quando estava mixando o álbum Ultraviolence. A mixagem deste álbum levou tempo, e foi bom começar, naquele momento, um novo processo criativo. Meu humor estava realmente bom no começo, mas tornou-se introvertido quando me perguntei como terminar este disco.

Você queria um disco ligado ao jazz. Você realmente o concebeu desta maneira?

Acho que sim. De certa forma, as faixas Honeymoon, Terrence Loves You, God Knows I Tried e o cover de Don’t Let Me Be Misunderstood tem uma coloração bem noir triste e eu tentei intensificar o ritmo do álbum com as faixas do meio, como Freak e Art Deco.

Honeymoon é uma de suas canções mais fortes…

É uma das primeiras faixas que eu escrevi para o disco e que tomou conta de mim imediatamente. A melodia e a letra do refrão continuavam voltando na minha cabeça dia após dia, mas eu adiei o momento em que eu iria trabalhar no resto, os harmônicos… Eu acabei gravando no estúdio e isso imediatamente tocou meu ponto mais sensível. Fiquei feliz em seguir o que eu senti mesmo que a melodia soasse obscura e um pouco como a dos anos 30.

Muitas vezes suas músicas mencionam lugares, avenidas. Qual é a importância de Los Angeles em sua escrita?

Os lugares que eu cito nestas novas canções são importantes demais para mim. Algumas vezes eu gostaria de ser menos precisa, mais universal, mas estou sendo muito leal a mim mesma ao evocar determinadas avenidas, ruas ou nomes de pessoas. Wilshire Boulevard, em particular, é muito querida para mim, porque eu geralmente paro lá para escrever. Talvez porque seja uma das maiores ruas de Los Angeles, ou talvez porque o meu meio de socializar seja dirigir ao longo de uma avenida congestionada e observar as pessoas.

High By The Beach e Honeymoon estão relacionadas?

Agora que mencionou isso, Honeymoon era uma música mais pessoal em que eu pensei sobre o meu passado, eu queria compartilhar alguns dos meus lugares favoritos e todos os meus momentos de paz com alguém. High By The Beach é a última canção que eu compus para o álbum e fala, lá no fundo, sobre a solidão. Eu não acho que haveria uma ligação entre essas duas faixas, mas há uma em todo o disco, a mesma atmosfera melódica, especialmente nas faixas mais ligadas ao jazz.

As referências literárias são importantes para você. Quais escritores ou artistas tem te inspirado recentemente?

[Allen] Ginsberg, com seu jeito livre de escrever seus pensamentos, me inspira muito mais agora do que antes. Eu amo Emily Dickinson, Miles Davis, The Moody Blues, Leonard Cohen e, acima de tudo, Bob Dylan. Federico Fellini e [Pablo] Picasso também.

Terrence Loves You e Honeymoon são partes de suas canções mais pessoais. Você queria mergulhar em sentimentos mais profundos? Encontrar outras perspectivas para a sua música?

Na verdade, não. Tinha a impressão de que, após três discos, eu tinha que me concentrar em algo mais surreal, e que não fosse demasiado intelectual. Dito isto, a faixa God Knows I Tried evoca a confusão que eu sentia e Terrence Loves You me toca mais de perto. Nesse álbum, eu acho que estou mais próxima de minhas emoções.

Terrence Loves You parece evocar uma memória evasiva.

Eu amo a ideia de uma memória que desaparece lentamente. É muito romântico.

Você fez um cover de Don’t Let Me Be Misunderstood: como é que esta música encaixa-se com seus outros covers?

Eu escolho covers que contam histórias paralelas às minhas, ou sentimentos que seriam difíceis de expressar com minhas próprias palavras. Dependendo do período de minha vida, eu faço covers de canções que me permitem dizer coisas para outras pessoas, ou mesmo palavras que eu queria me ouvir dizendo para corrigir alguns dos meus problemas.

O videoclipe de High By The Beach dá a impressão de que você está tentando se proteger do mundo exterior. É esse o caso?

Sim.

Que impressão você tem sobre a faixa que você fez com The Weeknd e que acabou de ser lançada?

Uma boa impressão. Nós queríamos fazer algo juntos há um bom tempo e é uma coincidência que ambos os nossos discos estejam sendo lançados ao mesmo tempo. Ele é muito talentoso.

Uma última pergunta: como você usa suas unhas agora?

Neste momento as minhas unhas não são nem muito curtas e nem muito longas, bem básicas e sempre nas cores rosa ou bege.

Tradução por Carolina Araújo, Gabriela Mendes e Thiago Goedert. – Equipe Lana Del Lovers
Entrevista original por Grazia.