Lana Del Lovers

InTallaght: Lana Del Rey fala sobre suas composições, álbum Ultraviolence, críticas, Dan Auerbach e muito mais

Em entrevista para a revista irlandesa InTallaght, da qual é capa da edição de agosto com ensaio fotográfico realizado por Neil Krug, Lana Del Rey falou sobre suas composições, álbum Ultraviolence, críticas, como foi trabalhar com Dan Auerbach e muito mais. Leia abaixo a tradução da matéria:

Com o seu incrível álbum de estreia, Born To Die, Del Rey lançou-se como uma estrela pop trágica de uma época passada.

Os meios de comunicação pareciam obcecados por qualquer coisa, exceto por sua música/álbum: a suposta carreira musical desastrosa de antes, sob seu nome real; seu suposto pai multimilionário que estava financiando sua carreira ou a ridicularizavam agressivamente sobre a performance no Saturday Night Live.

Lana cativou o mundo com seu single Video Games. Seu álbum Born To Die já vendeu mais de 6 milhões de cópias e ela já vendeu mais de 12 milhões de singles no mundo, incluindo Young and Beautiful, feita para a trilha sonora do filme The Great Gatsby; seu enorme sucesso mundial Summertime Sadness e sua versão assombrosa de Once Upon A Dream para o filme Maleficent da Disney.

Seus vídeos geraram mais de um bilhão de visualizações no YouTube, fazendo dela um dos artistas mais procurados do mundo.

Em 2012, Del Rey mudou-se do Brooklyn para L.A., e um ano depois começou a trabalhar no sucessor de Born To Die. Lançado em junho e produzido por Dan Auerbach, Ultraviolence evita as melodias usadas no Born To Die e se joga em intros despojados de piano e solos de guitarra pesada.

Liricamente, no entanto, a posição de Del Rey continua inflexível, com títulos como Money Power Glory e Fucked My Way Up To The Top explicitamente referenciando a sua imagem, e tendo como objetivo os seus inúmeros detratores.

Apesar de West Coast, primeiro single do novo álbum, não ter tido muitas execuções nas rádios, o álbum estreou em primeiro lugar na Billboard, vendendo 182 mil cópias em sua primeira semana (mais do que o dobro do que Born To Die), uma prova de que sua base de fãs está cada vez maior e sua chegada como uma das rainhas da música popular do século 21.

Parabéns pelo seu novo álbum Ultraviolence, é um disco maravilhoso. Você sentiu algum tipo de pressão após o sucesso de Born To Die?

Muito obrigada. Curiosamente, eu senti menos pressão, porque depois de dois anos após o lançamento do Born To Die, eu realmente senti que eu já tinha lido tudo o que já havia sido escrito sobre mim e que sempre iriam escrever. Isso me fez sentir mais livre para fazer o que eu queria, porque eu já sabia esperar o inesperado. Por causa disso, na verdade, foi mais fácil, pois a resposta era sempre semelhante. Nunca é mais fácil uma vez que é feito, mas o processo é sempre espontâneo, eu acho.

Quando você escuta o Ultraviolence, você percebe que não é sobre violência em geral. Por que você escolheu esse polarizador título do álbum?

Não, não é. A razão para que eu escolhi como título foi porque eu amo palavras, eu amo palavras de alto impacto, assim como a palavra “ultraviolence”, apenas o som dela falou comigo. Da mesma forma que a palavra “tropico” falou comigo quando eu estava fazendo o meu curta-metragem, mesmo que ela não tenha uma tradução verdadeira para o Inglês. Eu me senti como se a justaposição das palavras “ultra” e “violence” se encaixavam no que eu estava passando, muitos fluxos e refluxos. Eu me sinto conectada por duas emoções – agressão e suavidade. Eu gosto do luxuoso som da palavra “ultra” e o significado sonoro da palavra “violence” juntos. Eu pensei que essas palavras poderiam se complementar. Eu gosto quando dois mundos podem viver em um.

É sobre suas experiências de vida dos últimos dois/três anos ou antes disso?

Sim, eu diria que é definitivamente sobre os últimos dois anos, e antes disso também!

É difícil acreditar que você teve alguns momentos baixos em sua vida nos últimos dois anos?

Bem, eu estava falando sobre isso com meus amigos e eu acho que minha vida foi apenas um pouco tumultuada, por exemplo: cada vez que algo realmente doce aconteceu, também houve algo um pouco amargo. Algo inesperado e tão só, você sabe, um monte de fluxos e refluxos, altos e baixos, mas você sabe que em geral o mais incrível é ter a gravação e estar amando isso.

É verdade que você começou a trabalhar no álbum Ultraviolence por si mesma quando Dan Auerbach do The Black Keys entrou em cena?

Eu estava fazendo o Ultraviolence no último dezembro no Electric Lady Studios e eu estava produzindo sozinha com um baterista de sessão e com o guitarrista dos Black Keys por volta do dia 20. Então, Dan ouviu a gravação e gostou muito. Ele achava que eu deveria ir para Nashville com ele e começar tudo de novo, para se aproximar dessa visão que eu tinha desse tipo de fusão da costa oeste com a influência do jazz underground. Ele meio que trouxe vida para essa minha ideia sonora.

Você teve alguma preocupação sobre o fato de que Dan Auerbach é mais conhecido por ser um produtor minimalista, o que pode ser visto como o oposto do seu som?

Acho que éramos considerados um casal estranho, mas eu acho que isso tem a ver com alguns equívocos gerais sobre mim no final porque, você sabe, antes do Born To Die estar completamente produzido, as demos eram algo decompostas de cantor/escritor e quando me encontrei com Emile Haynie, ele meio que me construiu, especialmente porque ele não só adicionou as batidas, mas ele me apresentou ao Larry Gold da Orquestra de Filadélfia.

E então camadas e mais camadas foram adicionadas àquela última seção, mas eu acho que tudo começou a partir de uma espécie de apreciação por Folk, Classic, Rock n’ Jazz e Blues.

A razão pela qual gostei de Dan é porque ele manteve as coisas simples e ele sabia exatamente o que eu estava querendo, então, para mim, ele sempre pareceu uma boa opção de produtor.

Com Dan sendo o produtor, seu álbum soa mais psicodélico. Essa foi a sua única influência?

Foi um tema comum que nós dois gostamos. Eu sinto que Dan tem suas raízes no Funk e Soul, mas não me cite nisso! Quero dizer, eu realmente não sei o que ele gosta de ouvir, mas eu sei que ele prefere coisas do tipo Soul, Blues e Funk e eu gosto mais do Jazz inicial, fácil com uma sensação da costa oeste. Acho que no final do dia, uma vez que estávamos com a banda, nós dois sabíamos exatamente o que queríamos ouvir, um tema comum que ambos gostavam.

Tem-se a impressão de que você encontrou-se em Ultraviolence.

Sim. Eu acho que quando você vem de uma espécie de “faça você mesmo”, quando você está escrevendo você não  tem que censurar-se tanto assim. Quando escrevo, eu só tento fazer o tipo de música que eu gostaria de ouvir quando estou dirigindo ou quando estou em casa.

Eu amo música antiga com ricas texturas, talvez não composições estruturadas.

Outra característica importante que distingue o Ultraviolence do Born To Die é o fato de que não há mais batidas de hip hop?

Sim, é verdade. Quero dizer, eu amava as batidas, você sabe, eu aprecio as influências do início dos anos 90 e tudo que o Emile [Haynie] trouxe. Foi bom ir ao passado e fazer algo um pouco mais casual.

É verdade que você estava no estúdio com uma nova banda?

Quando eu decidi voar para Nashville e ver o Dan, ele chamou todos os seus bons amigos do Brooklyn, Nova Iorque e de Nashville. Então, eram sete pessoas que estiveram envolvidas e nós realmente nos demos bem.

Bom, até agora, o som que liga as canções. E as letras? Todo mundo quer saber o quão autobiográficas elas são?

Eu sei que tenho dado entrevistas nos últimos três meses, uma grande parte delas concentrado nas letras e, principalmente, devo dizer que o lado negativo tem sido difícil, só porque eu nem sequer pensei sobre o que eu estava colocando lá até que estivesse feito. Só porque fui invisível por cerca de sete anos, fazendo música por mim mesma, mas não realmente pensando sobre isso, ou as repercussões ou o que as pessoas iriam dizer, o feedback… Mas, agora, eu penso mais sobre isso e é autobiográfico e uma parte é como uma retrospectiva, outras tem um pouco de fantasia, algumas delas são insinuações, referências, mas a maior parte dela está sendo impulsionada por influências ou por ter encontrado pessoas que têm personalidades de alto impacto, que me chamaram atenção e ser inspirada por aqueles, liricamente, tendo eles morrido cedo ou não.

Nós já te conhecemos um pouco aqui nas entrevistas. Você é alegre, gosta de rir, é feliz. Praticamente o oposto de sua música. Você já tinha reparado nisso antes?

Sim, eu posso ver isso agora. Eu estava em um lugar feliz e tenho uma disposição naturalmente pacífica, mas eu acho que fui influenciada emocionalmente por circunstâncias fora do meu controle e eles meio que infundiram ao tom das gravações que tenho feito nos últimos cinco anos.

O que faz você se sentir feliz?

Essa é uma boa pergunta. Muitas coisas, quero dizer, eu estou feliz quando as coisas não estão ruins. Fico feliz quando as coisas estão calmas. Eu adoro ir para o oceano. Eu amo dirigir. Eu adoro ir a shows. Apenas estar com as pessoas que realmente me fazem divertir. Eu amo o verão. Eu fico feliz no verão. Amo o calor, o clima quente. Fico feliz quando estou gravando algo, na maioria das vezes.

Em suas músicas você lida com os temas do amor, o mundo, o dinheiro, mágoa. O que lhe dá conforto?

Agora, eu acho que a coisa que me dá mais consolo e conforto é ter algo concreto para me segurar. Algo que é certo no meu mundo é que coisas incertas foram difíceis, em cima do sentimento não tão certo apenas em termos de o que as outras pessoas pensavam de mim. A sua própria mortalidade, ter todas as suas experiências, mas não ter certeza se a memória delas vai continuar depois que você se for. Se você vai se lembrar deles. É apenas uma espécie de toda palavra abrangente que também influencia o que acabo de escrever e as melodias que eu escolho.

Alguma de suas canções tristes e melancólicas já te fizeram chorar ao vivo no palco?

Já chorei antes, na Irlanda. Eu estava cansada e muito veio entre mim e o que eu fiz e por isso, na verdade, nem sequer senti que eu estava cantando minha própria história e foi isso que foi muito decepcionante, porque o que me dava prazer no início era documentar a minha própria vida apenas para o meu próprio bem, para a diversão. Eu simplesmente não estava mais sentindo que era divertido, mas eu acho que trazer algumas novas faixas do Ultraviolence deu vida nova para o meu set, eu realmente amo me apresentar com West Coast.

Foi amplamente noticiado há dois anos que você não gosta de tocar ao vivo e que sofria de medo de palco, isso ainda afeta você?

Sim, mas está ficando melhor. (risos) Eu acho que estava tão nervosa no início que me sentia como se as pessoas estavam vindo para o show só para ver se era bom ou ruim, ao invés de apenas vir a apreciá-lo. Eu não me sinto mais tão nervosa de subir no palco agora.

Você sofreu recentemente várias críticas na imprensa por causa de comentários que você fez à um jornal britânico. Isso te incomoda?

Sim, na América e na Inglaterra eles não têm sido muito educados. Em termos de peças, era quase como se a minha história tivesse sido escrita para mim, e foi uma estranha mudança de sentimento: como minha vida era realmente minha e então eu estava dirigindo-a e sentindo como se estivesse no banco de trás e acompanhando o percurso e esse, talvez, não seria bom.

Em grande parte do tempo, eu sinto que a música não foi escrita para ser popular e, portanto, não é música pop. Veio de um fundo alternativo e um lugar autobiográfico de uma maneira que eu estava apenas trabalhando a minha vida através de canções, por isso eu posso ver porque se as pessoas achavam que ia ser motivacional ou popular que acabou sendo perturbador e decepcionante. É como se eles estivessem procurando por alguém inspirador e eles não estavam recebendo isso.

Você também provocou a ira de alguns grupos feministas por causa da letra de Video Games. Isso surpreendeu você?

Eu não entendo como surgiu os comentários de cunho antifeminista, porque tudo o que eu estava dizendo era: ‘Eu fico tão feliz quando você chega em casa, e o céu é um lugar na terra com você. Eu nunca estive mais feliz.’ Eu não entendia nenhuma razão para que isso soasse submisso, para mim. Na verdade, eu realmente pensei que em uma idade tão jovem, eu fui abençoada por encontrar alguém que me fez tão feliz. E eu não entendia por que o amor verdadeiro não deve ser o fim de tudo, ser-tudo. Tenho todo o resto, você sabe? Mas, obviamente, em outras canções, ele toma um rumo diferente. E é apenas as diferentes experiências, na verdade.

Considerando todas as críticas agressivas que você recebeu em sua carreira, agora você sente-se vingada?

Sinto-me aliviada, mas eu não me sinto vingada. Eu não sinto que as coisas estão indo bem. Não é a maneira que eu escolhi ir. Portanto, não é como se eu sentisse que tudo mudou e isso é ótimo. Mas minhas motivações agora são as mesmas, que é apenas documentar o que aconteceu e tentar me sentir melhor sobre isso.

 

Tradução por Gabriela Mendes e Thiago Goedert. – Equipe Lana Del Lovers
Entrevista original por InTallaght.