Lana Del Lovers
Lana Del Rey - Complex (2017 - Timoth Saccenti)

Lana Del Rey fala sobre ‘Lust For Life’, carreira, apropriação cultural e muito mais em entrevista à ‘Complex’

Em entrevista à revista norte-americana Complex, Lana Del Rey falou sobre seu novo álbum, carreira, colaborações, apropriação cultura e muito mais. Leia abaixo a tradução da entrevista:

De seis anos pra cá, Lana Del rey tem atraído críticas reluzentes com uma música pop que não soa como nenhum de seus colegas da indústria. A voz fresca e obscura, o uso sábio de rap nas produções, a justaposição de imagens e sons clássicos americanos com linguajar grosseiro e hiper-contemporâneo… A partir desses elementos Lana faz música que soa tanto familiar quanto desconhecida.

Lust For Life é seu mais ambicioso álbum até hoje, e como Lana explica em sua terceira presença na capa da Complex, ele surgiu de um período de autoconhecimento que, quando terminado, deixou-a “atenta a todo o resto” que o mundo têm a oferecer. Esperançoso e questionador, o álbum se engaja na política tumultuada e muitas vezes aterradora de 2017 em músicas como God Bless America – And All the Beautiful Women In It e When The World Was At War We Kept Dancing. De qualquer forma, essa visão de mundo mais ampla significou colaborações de artistas como Stevie Nicks, Playboi Carti, Sean Ono Lennon e A$AP Rocky. “Eu estava pronta para ter alguns de meus amigos presentes em algum álbum”, disse ela, “[e] eles foram naturalmente um pouco mais brilhantes que eu.”

Resplandecer é, de alguma forma, o princípio operante para Lana Del Rey neste momento. Aos seus 32 anos, sua carreira não é mais baseada no “acaso” como era quando ela começou. As questões de autenticidade e atuação que a rondavam no início são irrelevantes. Há apenas Lana Del Rey.

Você morava em Nova Iorque quando lançou Born To Die e sei que você deixou de ser uma nova-iorquina normal que pegava o metrô para ser Lana Del Rey, aquela que está no Page Six e é tema de um artigo de opinião no The New York Times.

Estava tudo ferrado. Isso mudou tudo. Eu lembro que eu estava trabalhando em algum lugar e que estava saindo de lá para entrar trem da linha seis e a TMZ estava atrás de mim o tempo todo.

Dentro do trem?

Sim, eu dei de cara com o cameraman. Foi a primeira vez que eu vi um paparazzo, mas ele não estava tirando fotos, estava apenas filmando. Eu nem sei se já tinha visto algo assim antes, porque é como se alguém te seguisse por aí com uma câmera VHS.

Ele estava tentando falar com você?

Sim, eu estava respondendo e parecia loucura. Eu desci as escadas, passei meu ticket e esperei o trem. Olhei para trás e o cara tinha um ticket e estava esperando também. Eu tava tipo, “Espera, isso tudo é real?” Honestamente, dali por diante um cara desses que vi ficava lá sempre. Eu pensei comigo, “Acho que terei que ir para outro lugar.”

Suas três primeiras capas de CD são bem sérias, uma mistura de tristeza e talvez até com um pouco de apatia na de Honeymoon. Essa é a primeira em que você está sorrindo.

Bem, a capa de Honeymoon eu pensava ser apenas mais casual. Eu sentia que estava em um espaço mais casual. Mas essa foi definitivamente em um espaço ainda mais leve. Minha irmã, Chuck Grant, que tirou a foto, e estávamos no estacionamento atrás do estúdio do videoclipe de Love. Nós não sabíamos se íamos fotografar a capa, mas sabíamos definitivamente que eu iria sorrir nela. Nós tiramos algumas fotos, e as desenvolvemos naquela semana, e eu senti que aquela deveria ser a escolhida.

Por serem tempos difíceis para se viver no mundo, é interessante que este seja o seu trabalho mais otimista, pelo menos em sua titulação e suas imagens. Qual foi a gênese disso tudo?

Bem, houve um pouco de mudança em mim. Senti que já tinha dito e feito muita coisa nos outros discos. Eu estava pronta para ter alguns de meus amigos presentes em algum álbum e eles foram, naturalmente, um pouco mais brilhantes que eu, então isso estava acontecendo no meu mundo. Eu senti que dois anos gravando músicas realmente sombrias não seria divertido.

Não seria divertido para você nem para os ouvintes. Você fala sobre os problemas do mundo e da política neste trabalho de forma que seus álbuns anteriores não o fizeram. Essa foi uma decisão consciente?

Nos últimos discos, eu precisava olhar para dentro para descobrir por que as coisas tinham ido tão longe seguindo um certo caminho, e então eu cheguei ao fim do meu auto-exame e, naturalmente, estava olhando para todo o resto. Mas, é claro, todas as minhas experiências e relacionamentos e coisas românticas ainda estão salpicadas em algumas das músicas desse álbum. Além disso, com [Barack] Obama como presidente, acho que eu e todo mundo que conheço nos sentíamos muito seguros e protegidos, sentíamos que estávamos sendo vistos da maneira que queríamos ser vistos, em termos do mundo. Então, não havia tanto para dizer, exceto algo como “olhe o quão longe nós chegamos e está ficando melhor, ficando ainda melhor”. Sinto que houve uma grande mudança.

Com este disco você infundiu mais política do que nunca. Eu acho que não é necessariamente um álbum político, mas é um álbum atual. Eu não tenho certeza disso, mas imagino que você tenha um número razoável de fãs americanos para os quais a posse e a administração de Donald Trump não sejam problemáticas. Como você negocia expressar seus próprios sentimentos honestos sobre essas coisas, e você pensa se vai ou não irritá-los, ou isso é algo que inspirou ira de pessoas que estavam até em seu ciclo de amizades?

Você não negocia quando se trata de seu trabalho ou sua arte. Você fica totalmente firme e enfrenta as consequências. Em termos de perder fãs, eu não me importo. Ponto. (Risos)

Nos dois últimos álbuns, Honeymoon e Ultraviolence, parece que você se concentrou em fazer coisas para você, e talvez para sua audiência principal. Com este álbum, parece que há uma ambição mais expansiva.

Eu consideraria isso como não se afastar da possível maior dimensão que ele pode tomar em comparação com os outros dois. Sinto que antes, com os dois últimos álbuns, talvez eu quisesse ser mais protetora em relação ao meu próprio espaço e minhas coisas.

Isso foi uma reação ao sucesso de músicas como o remix feito para Summertime Sadness?

Eu acho que foi uma reação ao fato de mais pessoas sabendo imediatamente quem eu era. Então eu estava tipo “Deixe-me verificar-me e entrar em um lugar onde eu tenho certeza que eu gosto do que estou fazendo, e eu sei que gosto da produção”. Com o remix de Summertime Sadness, já lhe havia dito antes, não escutei aquela música até que estava voltando de um show na Rússia e a escutei na rádio. Quero dizer, obviamente, em geral eu gosto de colocar minhas mãos em toda a produção.

Foi uma sensação estranha…

Foi estranho…

É estranho também que seja provavelmente…

Uma sucesso enorme?

…o seu maior sucesso?

Mesmo? Você vai dizer isso?

Quero dizer, considerando os números das rádios, pelo menos.

Não, você provavelmente está certo.

Talvez não seja a sua música mais importante, mas…

Eu acho que Video Games está quase lá. Eu era mais sensível sobre isso antes porque quando você é novo, você tem tanto para provar. Você não tem tantas chances. Isso é real. Eu consideraria no momento ser bem cuidadosa. Você sabe, em termos de colaborações, patrocínios ou o que for.

É libertador sentir que você pode fazer o que quer que seja bom no momento?

Sim. É, na verdade.

Você sente que isso influenciou numa maior ambição para Lust For Life?

[A$AP] Rocky está no álbum, e quando ele está na cidade e eu estou aqui, eu simplesmente estou no estúdio de qualquer jeito. E o mesmo com Abel [The Weeknd], sabe? Eu vou lá e ouço no que ele está trabalhando. Então pensei, “Porque eu não tenho meus amigos no meu álbum?” Era bastante natural, mas acho que com Abel, tudo o que ele faz agora é tão grande, então, talvez em uma outra época isso tenha soado um pouco mais assustador ou algo assim, mas agora simplesmente parece certo.

O que você quer dizer?

Bem, ele é super famoso e ele tem tantas músicas nas rádios, então eu não sei se saberia o que fazer com uma grande música na rádio. Não estou dizendo que tenho uma dessas nesse álbum…  

Mas se você tivesse, sente confiança a ponto de achar que seria excitante?

Que eu ficaria feliz, sim.

David Byrne, dos Talking Heads, escreveu um livro incrível sobre a história da música, ele aborda o significado do rádio no modo como as músicas são formatadas e a ideia de que são escritas para terem três minutos com três ganchos e uma ponte — não há nada na natureza que diga que é assim que uma música deve ser composta. É estritamente sobre como os programadores de rádio querem tocar três músicas por intervalo comercial, de modo que tenham “treinado” os artistas para trabalhar dentro desses limites.

Com certeza. E não são limites terríveis para se trabalhar. É meio divertido fazer uma pequena música com um lindo refrão. Mas acho que se você mesmo está escrevendo, é importante ter metade do disco, pelo menos, apresentando um pouco de sua vida lá, ou um pouco de sua opinião. Acho que se você é realmente bom, você consegue fazer os dois. Eu estava pensando em Bob Dylan.

Qual é a medida do sucesso para você?

A única coisa que continuou igual é que, para mim, a medida do sucesso com um disco é que eu consiga terminá-lo. (Risos) De verdade.

Sean Ono Lennon fez a faixa?

Ele fez sim.

Eu vi que você tirou essas fotos com um cavalo, mas não era um cavalo que estava saindo de uma lagoa na propriedade dele, então eu não sabia se isso era como uma foto subliminar.

Não é, não. Os cavalos acabaram sendo um tema aleatório de alguma forma. Ele acabou produzindo a faixa que fizemos, Tomorrow Never Came, e essa é a única música no disco que eu escrevi nos últimos dois anos que eu não sentia como se fosse minha. Eu senti como se eu tivesse escrito para outra pessoa, algo que… Eu nunca me senti assim antes. Então eu estava olhando as letras e eu tinha uma letra sobre John Lennon e Yoko [Ono], então liguei para Sean e perguntei se ele faria um dueto comigo. Ele disse que ele era o maior fã de seu pai, então seria realmente natural.

A outra coisa que notei é que quase todas as pessoas com quem você trabalha são homens. Isso é algo que já parou pra pensar ou é algo que te incomoda?

Bem, é estranho porque as pessoas próximas à minha vida de produção são homens. Acho que estou pensando em Rick [Nowels] e meus dois engenheiros de som, Dean Reid e Kieron Menzies, que mudaram minha vida musical inteira, meu som e meus álbuns. Mas na minha vida pessoal, há tantas mulheres. Bem, não há muitas produtoras, com certeza. No entanto, há algumas grandes compositoras femininas. Isso provavelmente mudará.

Quando você pensa em si mesma como compositora, como você acha que mudou dos dias de Born To Die para o que está escrevendo agora?

Talvez apenas a capacidade de integrar minhas próprias experiências com o que estou observando. Ser capaz de refletir sobre o passado, com uma boa mistura de mundo interior, mundo exterior.

As relações tóxicas foram o combustível de uma grande parte das letras dos primeiros álbuns, como você se mudou para uma espécie de lugar mais feliz e mais sólido, talvez tomando decisões melhores para a vida…

Tentando.

O que você pensa sobre sua vida romântica, e o que você acha sobre isso dentro do contexto de suas composições?

Eu sinto que nesse disco há — com as músicas que são “canções de amor”, ou sobre relacionamentos, sinto que me saí mais irritada com a maneira como as coisas estão indo do que como se pensasse, “Oh, pobre de mim”. Há um sentimento que recebo das minhas próprias coisas, porque às vezes meu próprio material é um pouco revelador para mim, você sabe, sobre mim.

Com muitos artistas que escrevem coisas muito pessoais, quando chegam a esse ponto em suas carreiras, às vezes fica mais difícil trazer à luz e revelar essas coisas por causa do sucesso, da fama e do trabalho.

Isso é tão verdade.

Você sente que é um desafio maior agora?

Sim, mas nunca fui uma pessoa que vira as costas para um trabalho difícil. Sempre estou planejando colocar novas peças em jogo. Como com a mixagem, se ela levar oito meses para ser feita, eu ficarei fazendo-a por oito meses. Se o principal não estiver certo, eu vou encontrar alguém para fazê-lo. Sobre as questões pessoais, se eu sentir que não estou fazendo isso corretamente, apenas continuarei tentando coisas diferentes até eu sentir que atingi meu objetivo neste departamento. Eu não sei, achar seu próprio caminho não é para os fracos de coração. Esse é o caminho mais difícil. É fácil continuar fazendo a mesma merda de novo e de novo e se surpreender com os mesmos resultados. De alguma forma isso é mais fácil que fazer algo diferente.

Você desenvolveu um personagem em cima do que foi escrito sobre você no início, e de uma forma um tanto real. Imagino uma grande parte de você, e depois talvez algo que se imagina. À medida que você foi ainda mais longe em sua carreira, você sente que as linhas entre essas coisas mudaram ou estão desfocadas?

Quero dizer, é disso que a maioria dos pensamentos são sobre. Você sabe, há muitas coisas que eu não poderia ter dito nas músicas e eu disse mesmo assim. Isso nem sempre me serviu para falar sobre alguns dos homens com quem eu estive e como era, e depois não comentar mais. Então, são algumas das minhas experiências e onde eu vivi e como era. Teria sido mais fácil simplesmente não dizer nada sobre aquilo do que ter que desviar todas as perguntas sobre isso depois.

Então, você acha que foi um pouco exagerado?

Eu não me editei quando eu poderia, porque muita coisa era exatamente assim. Quero dizer, porque eu mudei muito e muitas dessas músicas, não é que eu não relatei, mas… Muito se deve ao fato de que eu também estava meio nervosa. Eu iniciei de forma nervosa, e havia apenas muitas dualidades, um monte de justaposições acontecendo que me fizeram sentir que algo estava um pouco fora do normal. Talvez o que estivesse fora era que eu precisava de um pouco mais de tempo ou algo assim, e também meu caminho era tão veloz apenas para começar um primeiro álbum. Sentia que tinha que descobrir tudo sozinha. Cada movimento era um passo no escuro.

É meio engraçado, porque você estava com vinte e poucos anos quando você meio que surgiu. Ao olhar para artistas que lançaram seus primeiros álbuns mais novos, sejam eles Eminem ou Jay-Z, tipo, se você olhar para os trabalhos deles aos 22…

Sim, exatamente. É diferente.

Era muito cru e sem foco. Não havia o Eminem “Slim Shady” aos 22, mas aos 26 ele tinha o pacote completo.

Jay-Z fala sobre isso também, sobre como ele realmente viveu quando tinha 26 anos. Havia uma perspectiva real de onde ele veio. Então, sim, é uma idade na qual realmente…

Você consegue montar um projeto que seja mais completo.

Certo. E minha perspectiva já estava totalmente formada, só não foi uma ótima panorama. Não era tanto uma questão de personalidade comigo, era mais como “O que está acontecendo com aquela garota?”, sabe? Tipo, “De onde ela veio?”

Houve uma quantidade excessiva de conversas em torno da ideia de apropriação cultural, e Katy Perry aproximou-se disso com sua apresentação no Saturday Night Live. Você se movimentou de forma bastante orgânica do mundo de cantora/compositora para o hip-hop, sem muita comoção. Por que você acha que isso aconteceu?

Eu nunca sinto que estou onde eu não deveria ser, sabe? Não importa com quem eu esteja, eu sempre estou fazendo minhas próprias coisas. Não consigo me lembrar da última vez em que eu estava em uma balada ou em qualquer lugar e senti algo como “Cara, eu não deveria estar aqui”. Estou fazendo isso há tanto tempo e sinto que todas as pessoas das quais sou amiga, todos que conheço, sabem que sou movida pela música.

Você têm alguma consideração com as críticas e com todas as formas de prospecção do seu trabalho atualmente?

Sim, às vezes. Eu tenho uma música chamada Get Free que fecha o álbum, e começou contando toda a minha história, eu acho, e meus pensamentos sobre onde eu quero ir em seguida; E então percebi que, na verdade, não quero contar toda a minha história, não quero falar sobre isso.

Como você negocia o que mantém em segredo e o que está pronta para compartilhar?

Às vezes eu simplesmente não consigo resistir em falar sobre isso do jeito que realmente é para mim e em como me sinto.

Tradução por Gabriela Mendes e Thiago Muniz. – Equipe Lana Del Lovers.
Entrevista original por Noah Callahan-Bever à Complex.

  • Sheyla L

    Excelente entrevista