Lana Del Lovers
Lana Del Rey por David LaChapelle à 'Flaunt' de 2017.

Lana Del Rey fala sobre ‘Lust For Life’, David LaChapelle, novas canções e muito mais em entrevista à ‘Flaunt’

Em entrevista concedida à edição de maio da revista Flaunt, Lana Del Rey falou sobre o álbum Lust For Life, posar para as lentes de David LaChapelle, trabalhar com Sean Lennon e Stevie Nicks, novas canções e muito mais. Leia abaixo a tradução da entrevista:

O desejo surge em muitas formas aqui em Hollywood, bem como além de Tinseltown [apelido dado a Hollywood e sua indústria cinematográfica], onde é um pouco mais… normal? Você tem seu desejo sexual, desejo de poder, sede por viagens, desejo de intimidade, desejo por aquele que não ousa falar seu nome, desejo por seguidores, desejo de recuperar sua juventude perdida, desejo pelo futuro, desejo pela pornografia, desejo bíblico e virtual. Não importando-se com qual deles você se identifica, o desejo é curiosamente algo totalmente contido em nossa própria cabeça. Ele não tem antecedentes, não há mais de um, apenas semelhanças fractais espalhando-se sobre a história, o agora e o futuro que podemos apenas especular. Claro, dois libertinos podem colidir em meio a lençóis após uma convenção de arte em Islamabad [capital do Paquistão], ao redor de um prato em formato de coração de moqueca de camarão em um resort baiano, ou em um Porsche 911 de 1967 em Pebble Beach. Mas poderá ser dito que o desejo desses indivíduos pelo corpo do outro, pelo carro, é equívoco ou até mensurável? Não, o desejo, em sua forma mais grave, é algo que devemos reprimir, exercitar, pesar, ou atribuir valor por nós mesmos.

Considere o novo álbum da superstar Lana Del Rey, Lust For Life. Ao considerar, podemos assumir que este particular “desejo” tem alguma camada corrompida para algum tipo de tom invasivo, melancólico ou alienante? Algo misterioso? Por que podemos? Bem, porque esses são o tipo de insinuações que tendemos a colocar sobre a Lana Del Rey que conhecemos, ou presumimos que conhecemos, durante a última quase década, seja através do inumerável fuzuê da mídia confusa à sua volta, ou talvez o nosso próprio desejo de que ela cumpra pessoalmente alguns dos temas discutidos em sua discografia. Lana Del Rey está mentalmente indisposta. Lana Del Rey é obcecada pela violência. Lana Del Rey está perdida em uma era abandonada. Lana Del Rey está… feliz? “Acho que estava me sentindo feliz por estar presente e sem estar com medo de modo que eu não pudesse desfrutar das coisas do meu dia a dia”, ela diz sobre o título do novo disco, sentada de calça jeans, de pernas cruzadas no chão de uma suíte no hotel Chateau Marmont, desfrutando de batatas fritas e uma Coca-Cola diet em uma tarde de sexta-feira com uma leve brisa. “Eu sou o tipo de pessoa que realmente ama essas coisas. Como quando eu dirijo, eu amo cada estrada, e eu não posso acreditar que eu estou em Los Angeles. Eu amo a arquitetura, tomar um café, iniciar conversas com as pessoas que eu encontro. E eu odeio quando eu não consigo apreciar as pequenas coisas porque na parte de trás da minha cabeça eu tenho preocupações ou inquietações. Então, para mim, era esse tipo de desejo para a vida. Era basicamente apenas sobre felicidade.”

Estamos bem com isso? Podemos apreciar um desejo de Del Rey (nomeada ao Grammy) se não for torturado ou enlameado, com olhos de vidro, afogando-se em si mesmo? Pode este quinto disco seguir os esforços dos anteriores com títulos, como Born To Die (2012) ou Ultraviolence (2014), com calma, apreço pela luz e as árvores e a forma como um cappuccino espumante parece tão belo? Realmente não importa, pois nunca saberemos a exatidão desse desejo como sugiro acima, e está tudo bem. E de qualquer maneira, nada é mais indefinível ou elusivo do que a felicidade. O que importa é que as músicas do disco possuem uma incrível riqueza na produção, há alguns convidados excelentes e lendários em algumas faixas, e do ponto de vista da artista, é uma espécie de escultura, o que eu vou arriscar chamar de uma maturação distinta em sua obra. “O álbum tem menor dimensão”, observa ela. “Mas está mais bonito do que no passado. Eu não tinha ideia de que isso facilitaria a conversa.” Essa facilidade em discutir o conteúdo talvez coincidiu com uma espécie de abrandamento ou abertura nas arenas de recepção pública ou jornalística para ela? “Eu sinto isso”, ela diz pensativamente. “E me ajudou a ser mais aberta também. Porque é difícil falar sobre seus sentimentos mais íntimos se você sente que a recepção será fria. E eu me segurei por um tempo. Eu fiz um punhado de entrevistas, mas não muitas nos últimos anos. Mas também eu estava escrevendo e escrevendo, e cavando atrás de coisas novas, e não escrevendo coisas tão fáceis de digerir ou discutir. Isso ainda acontece comigo, mas como eu tenho nivelado isso não há tanto que eu não queira mais dizer. Eu me sinto confortável.”

Confortável poderia descrever a despreocupada Del Rey e seu colega de sucesso pop, The Weeknd, ao subirem no topo da letra “H” do icônico letreiro de Hollywood no videoclipe que leva o título do álbum, Lust For Life, que compartilha seu nome com um disco seminal de outro camaleão pop — Iggy Pop — e foi lançado alguns dias antes da nossa conversa. O tratamento é surreal e acanhado, quase pateta, de uma maneira que decadentemente afunda este sentimento feliz, esta apreciação do minuto a minuto. Os dois adoram enganar-se em tirar a roupa um do outro, mas permanecem inteiramente e elegantemente enrolados, canonicamente empoleirados acima de todos nós, como se um segundo grupo de amantes pudesse estar andando em algum barco a remo abaixo da letra “O”, apenas para ser encantado por um feitiço amoroso antes de desaparecer na noite. O vídeo termina com Del Rey surgindo no quadro, batendo seus cílios antes de uma espécie de sorriso, parecido com o de um gato após comer um canário, se espalhar sobre seu rosto e tudo sucumbe à escuridão.

Uma saída noturna em forma de pessoa. Irônico, e francamente divertido, é que ao mesmo tempo em que essa saída noturna do temperamento pessoal de Del Rey encontrou sua saída sonora — mais refinada e esguia — a artista dá um passo adentro do cosmicamente perverso, ensaiado e bonito universo do celebrado artista David LaChapelle. Aqui, ao invés de atuar como Lana Del Rey para sua foto de capa, ela incorpora todo mundo. Seus desejos, seus sonhos, suas dificuldades. A cantora dá vida à sua localização do Instagram “Hollyweird” com uma interpretação adequada.

“Da-vid La-Chapelle. Uau. Da-vid La-Chapelle”, Del Rey diz suspirando, visivelmente deixando cair o queixo, enquanto relembra seu ensaio fotográfico de 14 horas com o fotógrafo de arte. Sim, David LaChapelle: aquele escorregadio e tumultuado garoto do Oeste Selvagem, que extraiu petróleo de latas de Pepsi, leite materno de bandas de papais, e talento inimitável de celebridade após celebridade, tudo é claro enquanto inundava museus e armava utopianistas, enquanto se movimentava através da fama e da dor, de ensaios fotográficos e de mergulhos internos, de amigos, cidades e de aplausos. Da-vid La-Chapelle. E adequadamente, um dos mais influentes modeladores do desejo moderno, e em particular do desejo de Hollywood, todo prismático e decadente, dos últimos 50 anos.

“Eu simplesmente não pude acreditar”, Del Rey diz. “Porque eu sempre torno tudo difícil de trabalhar, porque eu não quero ficar falando muito. Então eu desafiadoramente disse a alguém, ‘Não me peça a menos que David LaChapelle vá fotografar’. E então eu recebo uma ligação de Stephen Huvane [um sócio na Slate PR], e ele diz ‘David LaChapelle está fotografando e você vai fazer isso.’ Então quando eu cheguei ao estúdio dele, que fica apenas a alguns quarteirões de distância da minha casa, eu fiquei deslumbrada. Ele é incrível. E ele pensa grande, diferente, e sobre texturas, e ele não quer fazer um simples retrato agora porque não é onde ele está em sua vida. E eu estou na mesma. Eu não quero fazer um álbum pop se estou me sentindo mais acústica, por exemplo. Então ele é bem verdadeiro com seu próprio espaço. Não há muitas pessoas que eu seguiria para o desconhecido, por assim dizer, mas com ele, eu provavelmente faria a maior parte do que ele sugerisse.”

Eu falo com LaChapelle pelo telefone. Ele acaba de almoçar com sua equipe no seu estúdio em Hollywood, e não, ele “não quer” discutir o processo por trás das fotos de Del Rey tecnicamente, ou até criativamente — apenas diz que está feliz com as imagens. Quando questionado porque ele resolveu criar a capa, sabendo que ele tão raramente cria imagens editoriais para revistas em vista de suas exibições globais e exposições de museus, ele diz: “Eu tenho uma relação com a Flaunt por um longo tempo. Lana é uma pessoa pé-no-chão. Eu gosto da escrita dela. Eu assisti ao show dela no Hollywood Bowl, e realmente gostei da música, e isso inspirou o conceito e as ideias para as fotos. Lana estava interessada em um ângulo artístico, não promocional, o qual eu realmente gostei. Muito mais interessada em criar arte do que promover algo.”

Algumas semanas antes, no estúdio de LaChapelle, depois da chegada de Del Rey, ele aponta para um punhado de cavaletes contendo talvez 15 fotografias vintage, super ampliadas, com pixels enormes. Esses nostálgicos, cotidianos momentos são o modelo criativo de hoje. O conteúdo? Aqui está o seu requisitado, levemente inclinado clique de uma sala de estar onde os sujeitos encaram petrificados uma televisão, tirada de uma loja La-Z-Boy adjacente. Há também pessoas descansando em parques nacionais. Há casamentos. Há encontros alcoólicos. Há juventude e morte e aquele cinza, pesado entre-período onde nós nos mudamos o mais distante possível de cada extremo, apenas para retornar fundamentalmente inalterados. É tudo muito Americano, bem pastoral, arquétipos empilhados sobre clichês, sobre costumes da nação. Na parte inferior do cavalete central há uma cena de acampamento de verão envolto em neblina de agosto, com tendas indígenas, carvalhos, e algum cara branco de perfil usando um adorno de cabeça no estilo índio americano. Tendo testemunhado nessa manhã em particular o mergulho embranquecido da Pepsi no inferno das propagandas fracassadas com seu agora retirado anúncio de Kendall Jenner [o qual incontestavelmente sugeriu os movimentos Black Lives Matter ou a ‘Marcha das Mulheres’ como pontos viáveis para a Pepsi usar como Grande Equalizador], surgiu uma preocupação sobre a apropriação cultural e seus riscos. LaChapelle considera a preocupação, mas sacode a cabeça e diz: “Não é apropriação. Você está apenas interpretando um personagem.”

Verdade. Interpretar um personagem é empréstimo ou homenagem, enquanto apropriação pode ser posta como maliciosamente pegar algo e usar sem permissão. E no caso da Pepsi: bastardização, insensibilidade, miopia. Em seus vídeos, pode ser dito que Del Rey caminhou por uma variedade de auto-representações, ou papéis, e essa aventura no desconhecido com Mr. LaChapelle certamente demonstra sua camaleônica aptidão para criação de personagens em sets fotográficos. Ainda, ela compartilha a infamiliaridade e a desafia estendendo isso às suas músicas.

Notavelmente, há uma canção no álbum Lust For Life, gravada com Sean Lennon, um número lúdico e cheio de camadas que explora, além de outras coisas, John Lennon e Yoko Ono — uma canônica deidade do desejo e da arte, se um dia houve alguma — que vê Del Rey refrescantemente saindo do seu próprio paradigma. “Eu me senti como se pertencesse a outra pessoa”, ela diz a respeito da faixa Tomorrow Never Came. “E eu nunca sinto isso, porque eu gosto de manter tudo para mim mesma. Eu pensei que seria estranho para Sean cantar uma música sobre John e Yoko também. Mas eu penso no fato de que eu canto, ‘A vida não é estranha agora que estou cantando com Sean.’ Isso mostra que nós dois estamos cientes. Eu não queria parecer exploradora de maneira alguma. Não que poderia parecer. Ainda, eu gostaria de ser o mais cuidadosa possível. Eu queria que tudo viesse em camadas com esse tipo de meta-narrativa misturada. De alguma forma é uma música sobre uma música.”

Eu falei ao telefone com Lennon, que atualmente está em Nova Iorque, que foi quem originalmente recebeu uma versão mais simples da canção de Lana Del Rey apenas com seus vocais, guitarra e um órgão. Para mim”, ele compartilha, Noventa e nove por cento do que é mágico a respeito dessa música era o que já estava contido em sua versão com os vocais originais. Senti como se meu trabalho fosse simplesmente destacar e acentuar o que já estava ali em sua voz, melodia e em sua letra. Tudo que eu tocava era meramente ornamental, como costurar um vestido de baile em uma mulher que já fosse deslumbrante: o único jeito de estragar as coisas seria se eu tirasse algo fora ou disfarçasse a beleza que já estava ali.”

Considerando a linhagem na música e sua primeira colaboração juntos, eu pergunto a Lennon o que ele aprendeu com a experiência. “Ela tem um gosto excepcional”, ele observa. “Eu disse a ela que trabalhar em sua música foi uma lição valiosa tendo em vista que eu frequentemente modulo e uso acordes e melodias contra-intuitivas, e ela me lembrou que você pode ser talvez até mais atraente se a melodia e os acordes parecerem naturais e intuitivos, e não inventados e desorientadores como na minha música. De qualquer forma, eu nunca vou esquecer quando ela me ligou depois de eu ter enviado o que eu fiz e suas primeiras palavras foram ‘Está perfeito!’ Eu quase chorei de felicidade porque eu honestamente não acho que alguém um dia já me disse isso sobre algo que eu tenha feito. Foi um sentimento muito bom.”

Além da meta-consciência das letras e a rica instrumentação [Lennon acrescentou “violão de 6 e 12 cordas, guitarra, guitarra havaiana, contrabaixo, vibrafone, cravo, sinos de orquestra, bateria, Mellotron e um Shaker.”] Uma letra particularmente ressonante se repete um punhado de vezes: “Você não estava no local onde você disse para esperar.” Pergunto para Del Rey se há temas de estase ou esperando em outro lugar na música. “Eu acho que é por isso que eu senti que qualquer coisa na faixa, não era a minha canção”, ela considera. “Eu não senti como se eu estivesse esperando por qualquer coisa. Realmente não é sobre qualquer coisa pessoalmente, exceto que eu amo os sons dela; os filtros. Eu tento ser a mais cuidadosa que posso, porque eu quero cantar no palco o que eu escrevo. E essa música vai ser fácil porque ela não toca nenhum ponto fraco emocional ou algo assim. E eu sei que é especial para Sean também, porque ele é o maior fã do próprio pai. Então eu gosto disso, de uma forma pequena, eles tiveram um momento, em qualquer maneira surreal que poderia acontecer.”

E assim, com a maturidade, calma e frescor, que Del Rey acumulou, cinco álbuns mais tarde, a capacidade de tocar outra pessoa, ao que parece, numa música. Mas, como ela mencionou, foi um passo que não seguiu uma norma. E eu não tenho certeza se o mundo está pronto para isso. Mais cedo, quando Del Rey chegou ao saguão do Chateau Marmont, nos abraçamos e trocamos algumas palavras enquanto seu surpreendentemente jovem e surpreendentemente empresário inglês, Ben Mawson, arranjava uma suíte para nossa entrevista. Mawson, quando voltou, mencionou suas ambições em visitar um místico em Santa Bárbara, e suavemente pegou as chaves do carro de Del Rey de suas mãos relutantes (como qualquer empresário bem-sucedido ousaria), e nos deixou com um guia e um sopro de fumo elegante, enquanto a cantora e eu caminhávamos até os elevadores. Fomos recebidos por uma atraente funcionária do hotel, que agiu de forma docemente familiar com Del Rey e entrou conosco no elevador. Depois de alguma conversa casual sobre a nova casa de Del Rey em Los Angeles, sobre a qual a funcionária tem algum conhecimento, a cantora por sua vez perguntou como as coisas estavam no hotel, a fixação de Hollywood por celebridades notáveis, tigelas de bolonhesa e buracos de coelhos. “Ah, você sabe”, a mulher observa. “As coisas mudam lá fora no mundo, mas aqui, continuam iguais.”

A mudança no mundo lá fora foi realmente bem sísmica. Portanto, há pessoalmente minha faixa preferida no álbum, God Bless America, uma batida desenfreada em forma de canção cujo título no refrão é seguido por “E todas as lindas mulheres nela” — isso instantaneamente ecoa através da melodia e Del Rey observa: “Sim, eu toquei nesse assunto.” Ela descreve a canção, com a qual Mawson havia compartilhado anteriormente sua relutância em lançar como single, dada a tendência de Del Rey em causar a mencionada polarização do público. “Há uma mensagem forte”, ela diz acenando com a cabeça. “Algumas iconografias, com a Estátua da Liberdade, saídas de incêndio e as ruas, e eu tenho um pequeno sentimento de Nova Iorque quando eu a ouço.” Eu digo a ela que a canção parece grandiosa em sua produção e soa como um hino em seu verso… Muito Nova Iorque de fato, uma pilha brilhante de império e conquistas. E enquanto Nova Iorque (e seus bancos) agitaram o líder do mundo livre e um clube de garotos não tão preocupados com todos sendo abençoados, quanto menos com as “suas lindas mulheres” — nos lembrando que a grandiosidade tem seus pontos baixos — God Bless America poderia facilmente ascender até se tornar um grito de guerra de 2017.

Eu a pergunto se ela sente que a natureza apropriativa do título da música pode causar alguma tensão. “Bem, é a palavra de Deus”, ela diz medindo as palavras. “Mas a frase tem um sentido mais amplo. É mais como um sentimento. Quando eu escrevi, eu não senti como se estivesse confinada a um retrato tradicional do Senhor, como alguns céticos podem achar. Foi mais como, ‘Que Deus abençoe todos nós e vamos torcer para sair dessa.'” Ela ainda explica o gênese: “Quando todas as Marchas das Mulheres estavam acontecendo, eu já havia escrito essa música, porque eu vinha escutando muitas coisas online. E eu tenho uma irmã, e muitas amigas, que estavam preocupadas a respeito das coisas que estavam sendo ditas na mídia sobre alguns de nossos líderes. E eu vi uma reação instantânea das mulheres, e fiquei tipo, ‘Uau. Não há confusão em como as mulheres estão se sentindo sobre o estado da nação.’ E então sem mesmo tentar, eu me senti compelida a escrever uma música dizendo que estávamos todos preocupados. E isso me fez realmente pensar no meu relacionamento com as mulheres. Eu me senti orgulhosa de mim mesma, porque eu amo as mulheres da minha vida. E eu tomo conta delas, pergunto o que elas pensam sobre música, e homens, e problemas, e eu pensei que era tão legal que eu estava ali no mesmo barco com elas. Mas de vez em quando eu não estou. Às vezes, eu sinto que estou em sintonia com o que está acontecendo, e aí alguma música minha é lançada e é tipo ‘Droga, foi um erro. Droga, isso não é o que as pessoas estão sentindo, de jeito nenhum.’ Mas com essa, eu estava bem ali ao lado de todos.”

Considerando o cuidado de gerenciamento a respeito da faixa, eu pergunto a Del Rey se o potencial para chutes na costela, ou algo assim, é particular a ela, não apenas a alguém famoso. Por acaso ela sente como se estivesse recebendo um tipo de desejo da mídia? Uma presunçosa e desonesta derrubada de mitos? “Talvez”, Del Rey considera. “Ou os jornalistas não tem personalidade suficiente e eles sentem como se a sua contribuição para a cultura atual fosse a construção de mitos. Das duas uma. É uma mistura. E eu definitivamente assumo responsabilidade pela forma como minha energia informou um monte de histórias não verdadeiras. Mas 50% disso tudo tem sido apenas a agenda pessoal de alguém.” Mesmo assim, apesar das cutucadas com o passar do tempo, Del Rey sente que a mídia é incrivelmente importante e algo que vale a pena lutar a favor no momento. “É por isso que eu realmente amo jornalistas”, ela diz. “Quando eles não são idiotas, porque escritores são pensadores críticos. Eles são pessoas que pensam que é importante conversar, e que conversação pode levar à mudança.”

Eu concordaria: o propósito fundamental da mídia é apresentar os fatos e estimular a conversação. Isso, é claro, foi jogado em um liquidificador de besteira ultimamente; uma eleição corrompida, vazamentos de informação orquestrados, e a mídia sendo brandida como “a inimiga do povo” pelo mercenário e laranja Presidente Donald Trump, deixaram a imprensa em uma posição assustada e sitiada. Até o mascote governamental particular da Fox News, Bill O’Reilly, foi finalmente destituído por assediar sexualmente mulheres que foram consideravelmente pagas por seus empregados durante anos para se manterem quietas. Está uma bagunça aí fora, direita ou esquerda ou no meio. “Eu sinto como se essa eleição tivesse abalado quase todos que estavam distraídos, se sentindo estranhos… Sei lá… Os fazendo prestar atenção nesse momento”, Del Rey diz. “Eu conheço muitas pessoas que tinham meio que uma mentalidade distraída e agora estão alertas, considerando coisas, e considerando suas próprias contribuições, e o que importa. Eu já sei o que importa para mim por um bom tempo, então eu já meio que estava ‘lá’, mas eu realmente não previ tudo acontecendo tão negativamente. Eu sinto como se estivéssemos em meio à uma experiência ‘Hitchicockiana’, e você está em uma situação, e todo dia você acorda e não consegue acreditar que as coisas que estão sendo ditas e feitas são reais. E eu acho que algumas pessoas estão questionando se tudo isso está mesmo acontecendo, especialmente com os problemas da Coreia do Norte, que são realmente os mais assustadores porque estamos falando de aniquilação nuclear.”

O mundo é um lugar extraordinariamente tênue. E mesmo que isso possa ser dito, certamente para o bem dessa matéria, que as primeiras sementes da civilização foram forjadas com o desejo pelo poder, nós estamos, ao que parece, em um momento de virada. Ainda no assunto da Marcha das Mulheres, eu compartilho um vídeo dos protestos em Caracas, Venezuela, onde cerca de dois milhões de pessoas estavam marchando contra o Presidente Nicolás Maduro, dúzias das quais foram alegadamente mortas pela polícia ou pelos aliados do governo. Eu observo que a natureza coletivista e comunitária do protesto poderia talvez ser comparada apenas ao poder da música. Existe no álbum algo que explore esse aumento do engajamento comunitário aqui e ao redor do mundo no presente? Ela considera. “Bem, eu tenho uma canção que é bem consciente a respeito da preocupação coletiva, sobre isso ser ou não o fim de uma era. É chamada ‘When The World Was At War We Kept Dancing’ [‘Quando o mundo estava em guerra nós continuamos dançando’, em tradução livre para o português]. Mas na verdade eu fiquei em dúvida sobre colocá-la no álbum, porque eu não queria que ela fizesse as pessoas se sentirem piores em vez de melhores. Ela não é apática. O tom da produção é bem obscuro, e isso não leva exatamente a um sentimento feliz. E a questão que isso coloca: isso é o fim da América, de uma era? Estamos ficando sem tempo com essa pessoa no comando do navio? Ele vai bater? Na minha mente, a letra era um lembrete para não me isolar, ou não parar de falar sobre as coisas. Era mais como estar vigilante e continuar dançando. Continuar alerta.”

Dado o ritmo e a intensidade do ambiente ao nosso redor sobre o qual a artista fala, eu aponto que existem momentos no álbum que dão uma sensação de solidão, ou de estar perdido nas expectativas, longe de estar ativo. Eu cito uma letra: “Nós nos vestimos para ir a nenhum lugar em particular.” Del Rey conta que ela teve uma conversa pelo telefone com um amigo mais cedo naquele dia, sobre suas vidas pessoais, sua música, e ela diz que ele também levantou essa questão quando falava sobre sua demonstração artística de estase. Ela discordou ele. “Não era sobre estase. Eu quis dizer que você não precisa ter algo pra fazer para poder se vestir bem e se sentir especial.”

Vivemos em uma cultura onde a pressão e os precedentes são abundantes, na qual mulheres constantemente lidam com o desafio de não se sentirem especiais baseadas no seu corpo, na sua cor de pele, sua idade, posição social, seu número de seguidores. Ela concorda? “É mais como se nós não tivéssemos o costume cultural em tomar nosso próprio tempo para gostar de nós mesmas por quem realmente somos”, ela diz. “Nós gastamos muito tempo quando a nação estava sendo construída e fundada, dinheiro, e depois veio o sistema educacional, então não é como em algumas culturas onde você tem tempo para meditar, et cetera, sobre seus próprios sonhos, desejos, valor pessoal. Eu acho que não temos prática suficiente. Não é como se ensinassem isso na escola. Mas eu acho que isso está mudando também. Isso é na verdade muito sobre o que o álbum fala. Até em ‘God Bless America’… ‘Aceite-me como eu sou, não me veja pelo que eu não sou… Só você pode me salvar essa noite.’ É sobre ver as pessoas: o que elas realmente estão fazendo. Quem elas realmente são.”

Nesse sentido, Del Rey está defendendo os mesmos valores que os predecessores que a influenciam, por poucos e distantes que sejam, e por mais enganados que possam ter sido pelo sistema no qual tiveram sucesso. Considere Beautiful People, onde ela troca versos e se junta no refrão com a primeira e única Stevie Nicks, a qual eu me refiro como uma verdadeira durona. “Eu não sabia o que eu poderia ou não pedir a ela”, Del Rey observa. “Quando eu pensei sobre as mulheres que poderiam contribuir com algo para o álbum, ela era a que sempre vinha à minha mente. ‘Verdadeira durona’ é uma ótima frase pra ela. Ela é muito real. E ela ainda está fazendo turnês, o que me desconcerta. Existem tão poucas mulheres fazendo isso. Você tem Courtney Love, que trabalha, canta, faz turnês… Não há muitas mulheres que estavam fazendo música nos anos 70 ou 80 que ainda fazem música. É realmente muito louco.”

Estamos conversando há pouco mais de uma hora. Retorno a uma conversa que tínhamos compartilhado brevemente na sessão de fotos a respeito disso, a edição da Flaunt sobre música, e o seu tema (“coração partido”), determinado antes de assegurarmos Del Rey como nossa matéria de capa. Ela havia sido informada sobre isso por sua equipe e foi visivelmente cautelosa sobre o assunto. De novo, o dilema da personificação. Apropriação? Interpretação? “Tudo que eu fiz nos últimos dois anos”, ela diz com confiança, “Eu nunca diria nada que não fosse verdade. Mesmo na música. Foi por isso que eu estava nervosa sobre estar na capa, junto com letras grandes que dizem ‘A edição do coração partido’, porque a verdade é, eu não me sinto de coração partido. Então eu não queria continuar uma narrativa que não se aplica a mim. Porque a única pessoa que realmente se importa se eu continuo essa narrativa ou não, ou qualquer outra, sou eu. Então eu tenho que ser diligente. E não funciona sempre, mas eu estaria condenada se não pelo menos tentasse.”

Del Rey, de fato, cria expectativas sobre suas narrativas, sendo elas isoladas em sentido para ela ou não. Isso vem com o território, eu suponho. Talvez a razão pela qual o público não tenha concedido a ela o mesmo espaço para interpretar sua persona como costuma dar a outras celebridades, é porque este público sente que ela não é uma intérprete, e sim uma apropriadora. Não de identidades culturais, momentos históricos importantes ou de identidades étnicas/religiosas/nacionalistas, mas de emoções. Teria Del Rey, por acaso, desenterrado o sentimento de desamparo que se proliferava quando ela apareceu em 2008, enquanto a economia estava quebrando? Por que, quando ela canta sobre manipulação, nós concluímos que ela está manipulando ou sendo manipulada? Por que, quando ela canta sobre se vestir bem por nenhuma razão além de se sentir especial, ninguém a imagina em casa, toda arrumada, indo a nenhum lugar? Alguém que escreve e canta tão pontualmente e consistentemente sobre o amor desafia sua própria natureza inarticulável? Esse amor é emprestado ou roubado? De nós? De quem? Como podemos saber? Porque alguns músicos podem cantar sobre todo tipo de porcaria, e todos dão a eles a concessão para fazer isso. Por que Lana tem que ser a sua música? Alguns poderiam argumentar que é essa colisão de cantora/compositora — a partir da qual nós esperamos que ela cante sobre as experiências do seu coração — com a rainha pop, da qual nós esperamos que cante sobre nós e para nós. Outros podem especular que o intuito de Del Rey é verdadeiro, que seu coração é sua luz-guia, que é mais do que música. E finalmente, outros podem sugerir que é a responsabilidade da arte; de recolher emoções de todos os lugares, permitidas ou não, e destilá-las em algo acessível. Conheço algumas pessoas que gostam de compor”, ela diz enquanto recolhemos nossas coisas para deixar o quarto do hotel. “E que amam rimar, amam melodias, assim como eu. Mas para mim é muito mais do que isso: parece ser o trabalho de uma vida e parece que é realmente importante apenas para mim, então eu dedico muito tempo nele.”

Um desejo pela vida, e o que você tira disso. E o que Del Rey tem feito da sua música; ganho e conquistado, enquanto o mundo continua a tirar de nós e nós dele. Caminhamos até a varanda e abrimos as janelas, que, ao mesmo tempo, também servem como portas. Vários dosséis cobrem o pátio do jardim do restaurante do Chateau Marmont. Nós observamos que por baixo desses dosséis, tudo pode parecer tão glamouroso, tão suspenso. De cima, no entanto, você vê que é plástico industrial, precisando levemente de limpeza, que os clientes abaixo deles mancharam como aqueles que não assinaram a renúncia em um reality show de dança, interpretando um papel, tudo menos reconhecível.

Tradução por Bryan, Giovana ParisiPedro ThiagoThiago Goedert e Vinícius Dias. – Equipe Lana Del Lovers.
Entrevista original por Matthew Bedard à Flaunt.