Lana Del Lovers
Lana Del Rey, por Neil Krug, para a revista britânica 'NME' (2017).

Lana Del Rey fala sobre novo álbum, amizades, feitiço contra Donald Trump e muito mais em entrevista à ‘NME’

Em entrevista à NME, revista britânica especializada em informações sobre a indústria musical, Lana Del Rey falou sobre seu novo álbum, Sean Ono Lennon, amizades, feitiço contra Donald Trump e muito mais. Leia abaixo a tradução da entrevista:

O novo álbum de Lana Del Rey, Lust For Life, é o seu mais ambicioso até agora. Mike Williams se encontrou com ela na cidade que mais a inspira, Los Angeles — um lugar, ela diz, que “realça algo em mim que já estava cozinhando” — para falar sobre música, felicidade e bruxaria.

Não surpreenderá ninguém saber que Dr. Dre tem auto-falantes muito bons no seu estúdio. E quando eu digo muito bons, eu não quero dizer muito bons no estilo headphones caros e populares. Eu quero dizer muito bons no sentido “p*** que pariu, eu consigo ouvir cada um dos grãos de poeira espacial nessa wall-of-sound galáctica”. É como nós ouviríamos música se fossemos todos magnatas bilionários da indústria musical.

Dre nos deu permissão para usar seu estúdio em Santa Mônica — do outro lado da estrada, em frente à legendária Interscope Records — para ouvir Lust For Life, o mais recente álbum de Lana Del Rey, pela primeira vez. O interior do estúdio é revestido com madeira que parece cara. As luzes estão sedutoramente obscurecidas. Parece ao mesmo tempo o escritório de Don Draper e a cabine de piloto do Millenium Falcon. Há um abajur de lava próximo a uma luminária do Bruce Lee no topo da mesa principal. A água que bebemos está perfeitamente fresca. É totalmente Los Angeles.

É um lugar adequado para ouvir o álbum maduro de Lana Del Rey. De grande escala em todos os sentidos — sonicamente, vocalmente, tematicamente — é a culminância de dois anos de trabalho incansável. Escrevendo, editando, descartando, reescrevendo, ajustando, apagando, reconstruindo. Como ela me diria no dia seguinte: “Eu meio que senti, quando comecei, que estaria em um lugar totalmente diferente quando terminasse, um espaço totalmente novo. Eu estou muito orgulhosa de que há uma mudança no tom, uma mudança na perspectiva. Há um pouco de reflexão no que eu estou vendo e tudo está integrado com o que estou sentindo. Normalmente, eu estou tipo, ‘Vou só lançar isso’, e então eu fico realmente surpresa quando as pessoas ficam tipo, ‘Você é louca pra caralho.'”

Del Rey tem sido companheira de gravadora de Dre na Interscope desde outubro de 2011, quando ela rompeu o contrato com a 5 Points Records, onde ela brincava com diferentes identidades e sons. Seis meses antes, ela se tornaria uma estrela do dia para a noite com sua estética no lançamento do seu single de estreia, Video Games. No espaço de três álbuns aclamados (Born To Die de 2012, Ultraviolence de 2014 e Honeymoon de 2015) ela foi de rainha caseira da internet a uma superstar de Hollywood totalmente formada. E agora ela não somente tem as músicas — elas estão lá desde a primeira vez que Lizzy Grant olhou no espelho e Lana Del Rey piscou de volta — mas também a produção, a ambição, o poder impulsionador e os colhões para fazer Lust For Life.

Eu escuto nove faixas nos grandes auto-falantes — Love, Lust For Life (feat. The Weeknd), 13 Beaches, Cherry, White Mustang, Groupie Love (feat. A$AP Rocky), Coachella – Woodstock In My Mind, Beautiful People Beautiful Problems (feat. Stevie Nicks) e Tomorrow Never Came (feat. Sean Ono Lennon) — antes de dirigir até um bar na cobertura em Hollywood e pedir drinks para aspirantes a estrelas de cinema, olhando para as colinas para meditar sobre o que acabei de ouvir. Shoo-wops, doo-wops, produção wall-of-sound; momentos de ternura, momentos de raiva, sexo, carros, incertezas, a vida opulenta em Los Angeles. Se você forçar os olhos, você pode ver o famoso letreiro de Hollywood na distância. Se você fechar os olhos, você pode ver Del Rey olhando pela sua janela bem no meio da letra H.

No dia seguinte, estamos em outro estúdio em uma parte diferente da cidade, esse pertence ao colaborador de longa data de Del Rey, o produtor Rick Nowels. Ele nos recebe na porta com um grande sorriso e nos acompanha até a sala principal onde o álbum foi gravado. É desordenado, de um jeito morno e caseiro. Ele quer saber o que achamos do álbum. Ele está empolgado para falar sobre isso. Nowels tem 57 anos de idade, uma lenda da indústria que já trabalhou com Madonna, Tupac, Stevie Nicks e mais, mas é óbvio que há um espaço particular na sua cabeça e no seu coração reservados para Del Rey, quem ele repetidamente descreve como “especial” e “memorável”.

Del Rey chega. Ela está usando uma camiseta de crochê e jeans. Nós nos sentamos em uma sala lateral e ambos ligamos o gravador nos nossos celulares. Na mesa há um livro sobre a vítima da Família Manson, Sharon Tate, que nenhum de nós nota até a entrevista ter acabado. Eu a pergunto se ela está tão feliz quanto parece na capa do novo álbum. “Sim…”, ela diz. “Esse era meu objetivo, sabe, chegar em um lugar onde sinto que tenho ímpeto na minha vida diária. Como um movimento contínuo saindo do lugar de onde Honeymoon e Ultraviolence vieram. Eu amei esses álbuns, mas estava me sentindo um pouco presa em um só lugar.”

Como ela seguiu em frente? “Eu apenas me senti um pouco mais presente. Compor uma música como 13 Beaches — é meio que uma noção abstrata, mas precisei passar por 13 praias em um dia quente até encontrar uma vazia. E eu pensei, sabe, o conceito de precisar encontrar 13 praias pode parecer um problema de luxo pra alguém, mas tudo bem, eu vou fazer isso.”

É uma faixa chave no álbum. Sua voz nunca soou maior ou mais emocional. “Eu normalmente faço as coisas em poucas tentativas”, ela diz, “Mas precisei de várias tentativas para fazer essa. O estado de espírito que eu precisava transmitir era melhor do que aquele que eu estava conseguindo. Eu sabia que era importante ser certeira como uma flecha nessa [música]. Eu sempre sinto que estou criando um novo caminho quando estou fazendo uma canção.” Escrevendo, editando, descartando, reescrevendo, ajustando, apagando, reconstruindo.

Não é que Del Rey tenha sido completamente reinventada em Lust For Life. A faixa-título, a primeira de cinco colaborações no álbum (nenhum álbum anterior da cantora havia sequer tido uma colaboração), talvez não venha do melancólico e descolado mundo de Video Games ou de Terrence Loves You, mas é tão nostálgica quanto. Nostalgia pode ser triste ou feliz, e na sua melhor [música] — me deixe dizer isso, eu acho que essa música pode ser a sua melhor de todas absolutamente — Del Rey toca as duas coisas ao mesmo tempo. Será que ela concorda?

“Estou pensando sobre isso. Isso se alinha com o meu pensamento de que eu estaria em uma área mais madura [escrevendo esse álbum], mas na verdade eu ainda estou em algum lugar no meio. Quando eu penso nessa canção, eu penso sobre a noite e a ideia de, não sei, invadir algum lugar e dançar muito e beijar. Isso é divertido pra mim. Este momento onde eu não estou em algo 100 por cento sólido em questão de relacionamentos, onde eu ainda estou saindo e conhecendo novas pessoas e tudo isso. E também, esse ambiente centrado em Hollywood ainda é algo importante que me dá vida, estando na cidade e os personagens e a constante onda de calor. É um pouco cliché — eu entendo isso totalmente; mas ainda sinto como se isso realçasse algo em mim que já está cozinhando.”

Hollywood e o brilho do sol podem ser um coquetel bem intoxicante, não podem? “Podem sim. Eu sou naturalmente uma pessoa cuidadosa, então eu gosto do ambiente… Eu não sairia e tomaria um coquetel de pílulas ou qualquer coisa, sabe, mas há algo na vibração de apenas estar em volta disso que me dá um sentimento elevado.”

A maior colaboração no álbum é o dueto com a lenda da banda Fleetwood Mac, Stevie Nicks. Del Rey diz que ouvir seus vocais a fizeram reavaliar seu próprio tom. Ela estava convencida de que Nicks a rejeitaria. Ela ainda fala sobre isso com um olhar de feliz descrença em tudo que realmente aconteceu. Mas o dueto mais interessante é na verdade com a pessoa que é, no seu próprio lado pessoal, a menos famosa e realizada de todas no álbum, mas pela virtude do seu sobrenome, a mais fascinante.

“Eu sou uma grande fã de John Lennon”, ela diz. “Eu não conhecia [seu filho] Sean. Eu consegui o número dele com o meu empresário, que ligou para o empresário dele. Eu estava meio nervosa sobre o que eu diria. Eu tive um FaceTime com ele — ele foi maravilhoso. Ele ficou bastante empolgado.” O resultado é a canção mais doce do álbum, uma delicada balada folk que gentilmente toca a quarta parede conforme faz referência a John e Yoko, e então Del Rey canta, “A vida não é louca agora que estou cantando com Sean?”

Há uma história por trás da canção, onde Del Rey ligou para Lennon para dizê-lo que ela acha que parte dele ficou perfeita, e ele diz que ele está tão feliz porque ninguém nunca disse isso pra ele antes. Ele é o filho de John Lennon, ele viveu toda sua vida à sombra de seu pai, e Lana Del Rey acaba de dar a ele o melhor elogio de todos os tempos. Há uma tragédia nisso, não acha?

“Absolutamente. É por isso que eu acho que é mais do que apenas uma música pra ele — pra nós dois. Ele é sensível, sabe. Eu acredito que isso vem do pai dele e acho que ele provavelmente diria que tem sido… Algumas de suas críticas têm sido difíceis. Eu acho que era um daqueles momentos no álbum que são ‘maiores do que nós’. Eu disse a ele, ‘Eu que estou honrada, eu que sou sortuda aqui; então só quero te lembrar que sou eu quem está cantando com você.'”

A entrevista toma várias direções diferentes. Nós falamos sobre se reunir em Los Angeles com Alex Turner e Miles Kane (“Eu vejo Alex por acaso. Tenho trabalhado com Miles”); sobre sua profunda amizade com Courtney Love (“Eu posso ligar, e provavelmente porque ela já fez tanta coisa louca, eu posso contar a ela alguma coisa bem estranha e ela vai ficar tipo, ‘Já estive nessa situação'”); seu amor por Kurt Cobain (“Uma influência maior do que Bob Dylan”); observar pessoas (“Eu sou uma observadora estranha”); o romancista Raymond Chandler (“Eu sou uma grande fã, eu amo ‘À beira do abismo'”); e a independência Californiana (“Eu sou defensora de manter o país unido, mas aqui é uma área tão própria, que poderia muito bem ser um país diferente.”)

Nós acabamos falando sobre mágica e o poder das palavras. Primeiramente, Donald Trump. Ele ainda é o presidente, o que significa que o feitiço que ela pediu que seus seguidores do Twitter lançassem no dia 24 de fevereiro não funcionou (ainda). Será que ela se envolveu e fez isso ela mesma? “Sim, eu fiz. Por que não? Olha, eu faço muita coisa.” Você lança outros feitiços em casa? “Eu estou alinhada com John e Yoko e a crença de que há um poder na vibração de um pensamento. Seus pensamentos são muito poderosos e eles se tornam palavras, e palavras se tornam ações, e ações levam a mudanças físicas.”

O peculiar trailer que você fez para o álbum (uma Lana mágica olhando para Los Angeles de cima, na sua casa no H de Hollywood, refletindo sobre o mundo e o espaço que são necessários para fazer um álbum) — é mais do que um trailer; é um manifesto pessoal, não é? “Há uma mensagem. Eu realmente acredito que palavras são uma forma de magia e eu sou um pouco mística de coração. E eu tenho visto como eu me sinto sobre mudar a vida das pessoas e eu já estive no outro lado disso também — do outro lado dos desejos bons e do outro lado das más intenções. E eu percebi como você tem que ser forte; maior do que tudo isso; até maior do que suas próprias vibrações.”

“Eu gosto do trailer porque eu falo sobre minha contribuição, que é algo que você começa a pensar. Eu tenho boas intenções. Nem sempre isso se mostra direito — não se mostrou direito uma boa parte do tempo — mas no núcleo minhas intenções tem sempre sido boas. Com a música ou quando eu entro em um relacionamento, é sempre porque eu realmente quero. Essa é a raiz desse filme B bruxesco e fofo.”

Você diz no trailer que esses são “tempos obscuros”. Há mais pressão para contribuir com algo positivo agora? “Eu não gostei e ouvir isso saindo da minha boca. Eu tenho uma canção, When The World Was At War We Kept Dancing, e eu não conseguia me decidir se colocava no álbum ou não porque eu não me sentia confortável com o que eu estava dizendo. Eu não gostava de me ouvir dizer, ‘É o fim da América’, porque é um sentimento problemático. Eu não gostei de dizer ‘nesses tempos obscuros’ também…”

Nós dois paramos de gravar mas continuamos falando sobre o estado do mundo em que vivemos. Eu digo a ela que estou vendo mais e mais artistas começando a se entender com o fato de que eles precisam ser mais abertos e ter opiniões. Ela concorda e diz que as pessoas precisam ser corajosas porque há consequências. Pela próxima hora, ela faz vídeos bobos no meu celular, come um sanduíche bagunçado e me ajuda a escolher fotos para mandar para a mesa de arte da NME. Não poderia ser mais diferente da ideia de Lana Del Rey que as maioria das pessoas acreditam.

Há uma confiança nela que talvez ela não tinha antes, uma confiança que vem, talvez, de saber que ela está prestes a lançar seu álbum mais completo, mas sabendo também que há ajustes que ela poderia ter feito diferente, coisas que ela fará direito no próximo álbum, ideias que ela tentará da próxima vez que estiver no estúdio com Rick Nowels. Escrevendo, editando, descartando, reescrevendo, ajustando, apagando, reconstruindo.

Tradução por Giovana Parisi. – Equipe Lana Del Lovers.
Entrevista original por Mike Williams à NME.