Lana Del Lovers
Lana Del Rey por Juliette Toma.

Lana Del Rey fala sobre novo álbum, fama, críticas, feminismo e muito mais em entrevista ao ‘Pitchfork’

Em entrevista ao site Pitchfork, Lana Del Rey falou sobre seu novo álbum, fama, críticas, feminismo, Stevie Nicks, Sean Ono Lennon e muito mais. Leia abaixo a tradução da entrevista:

Vida, Liberdade e a Busca da Felicidade: Uma Conversa Com Lana Del Rey

Nas vésperas do seu quarto álbum, a pop star pagã soa mais contente do que nunca. Como ela chegou lá?

Artistas famosos são notoriamente atrasados, mas quando eu chego cerca de 20 minutos mais cedo para uma entrevista no estúdio de Lana Del Rey em Santa Mônica, ela já está pronta pra mim, oferecendo um aperto de mão e um sorriso. Estamos há uma semana do lançamento seu novo álbum, Lust For Life, mas ela parece sem pressa e relaxada; Quando eu pergunto se ela tem estado ocupada com a preparação do grande dia, ela diz “não” com uma risada, como se soubesse que provavelmente deveria estar. Ela não está vestida como a glamourosa mística que você vê em seus clipes e fotografias: seu cabelo, longo e castanho, está preso funcionalmente atrás do seu pescoço, e ela está usando uma camiseta branca e jeans azuis, com tênis de lona creme e meias soquetes brancas em seus pés. Prontamente, ela me convida a passar por uma porta lateral e entrar no santuário onde suas profundas músicas são criadas.

Para os assistentes de Lana, esse é um lugar mítico. Ela tem gravado aqui desde o álbum de 2012 Born To Die, sua grande estreia por uma gravadora. É uma linda sala cheia de sol vindo de uma claraboia e duas janelas, o oposto dos estúdios habituais. Ele se parece um pouco com o que você esperaria do local de trabalho de Lana Del Rey: vagamente e calorosamente retrô, com armários de madeira escura e pinturas que parecem do meio do século passado, com formas geométricas entrelaçadas, penduradas na parede do fundo. No centro da sala há uma arranhada poltrona de couro com a capa do álbum de Tammy Wynette voltado para ela. (“Eu sempre deixo Tammy aí”, ela diz sobre a cantora country, que é mais conhecida por sua ode à devoção permanente, Stand By Your Man.) Essa poltrona, e não a real cabine na frente da sala, é onde Lana senta para gravar seus vocais. “Eu fico nervosa gravando na cabine”, ela diz. Ela gosta do fato de que o estúdio é perto da praia, onde às vezes ela vai para escutar as mixagens de suas músicas em seu iPhone.

O estúdio é operado pelo também proprietário Rick Nowels, seu produtor de longa data. Ele veio hoje para escutar o álbum conosco, um par de óculos de sol firmemente em sua face. Nowels é mais do que 20 anos mais velho do que Lana, que tem 32 anos, e ele tem meio que um papel de tio, deixando a compositora um pouco tímida quando ele docemente se refere a uma balada chamada When The World Was At War We Kept Dancing, chamando-a de “obra prima” por sua mensagem na letra sobre a importância de encontrar maneiras de se divertir, mesmo na era Trump. Se preparando para gravar o que se tornaria Born To Die, Lana conheceu numerosos produtores, os quais tentaram dizê-la como deveria ou não ser seu som, alguns encorajando-a a deixar pra lá seus estilo vocal de respiração, que viria a se tornar sua marca registrada. Quando ela finalmente conheceu Nowels, ele não queria mudar nada. “Eu passei por cento e onze produtores apenas para encontrar alguém que diz ‘sim’ o tempo todo”, ela diz. “Todo mundo está tão obcecado em dizer ‘não’ — eles te quebram para te construir de novo.”

Lana é viciada em estúdio — Lust For Life é seu quarto álbum em quase cinco anos. Ela diz que um dia em que ela trabalha é melhor do que um dia em que não trabalha. Nowels me diz que mesmo que o álbum ainda tenha sido lançado, ela já está fazendo novas músicas. “Se eu encontro uma ótima melodia na minha cabeça, eu sei que é um presente”, ela diz. Conforme nos sentamos para escutar Lust For Life, ela está claramente em casa: como uma boa anfitriã, ela me oferece sua confortável poltrona de cantar e se aninha em um sofá de veludo azul por perto. Ela tem uma harmonia familiar não só com Nowels, mas com os engenheiros de som Dean Reid e Kieron Menzies, os quais ela dá crédito muitas vezes por fazer seu trabalho melhor, e os quatro ponderam sobre masterização, fazendo piadas sobre o perfeccionismo de Lana quando chega a hora de fazer os cortes finais nas suas músicas.

O álbum, assim como todo seu trabalho, é delicadamente e enfaticamente Lana em seu som e atmosfera: uma névoa de ritmo lento e melodias florais, conjurando um cenário de pressentimento para letras sobre o verão e antigas celebridades ícones, e relacionamentos perigosos e insatisfatórios. Na frente e no centro da mixagem está sua voz, que tem tom de crooner e um alcance especialmente grande, do profundo e grave até o alto e agudo. A maioria das pop stars contam com a reinvenção para manter a relevância, mas sua produção é notavelmente consistente. Ela diz que seu principal critério é definir se a música soa ou não como se transportasse os ouvintes a outro lugar em suas mentes. Em cada álbum, o esqueleto permanece mais ou menos o mesmo, enquanto ela enche seu trabalho com elementos estilísticos de diferentes gêneros, do rap ao rock ao jazz. Lust For Life traz elementos do folk e do hip-hop, dois gêneros que ela diz amar porque ambos focam em realmente contar histórias.

O novo álbum é um desvio em pontos chave, entretanto. No passado, Lana se tornou famosa por temas que são, às vezes, desesperançosos: romance tóxico, violência, uso de drogas, desespero, envelhecimento, morte. Isso não é dizer que todas as músicas que ela já gravou são tristes, ou que ela não mostrou senso de humor sobre sua reputação. Mas sua implacável obsessão com as artes obscuras é a razão pela qual seus fãs a amam com um fervor quase religioso; ela teve problemas com pessoas invadindo sua casa: “Eles querem conversar”, ela diz descontraída. Seus temas ameaçadores também, em alguns momentos, levaram à resistência de uma audiência maior que, talvez treinada para pensar que a música pop é uma ferramenta de empoderamento e empatia, simplesmente não consegue lidar com o seu niilismo.

Enquanto Lust For Life certamente tem sua parte de momentos sombrios, não é bem uma avalanche de melancolia, e talvez ofereça sinais de um futuro mais feliz. Às vezes, Lana até se aproxima da alegria descomplicada, como em seu primeiro single Love. O álbum também contém alguns de suas primeiras músicas que lidam com um universo maior do que a entrelaçada intensidade de um relacionamento a dois — há faixas planejadas para serem bálsamos e gritos de guerra em tempos de tentativa, nos quais, como muitos americanos, ela se viu constantemente aflita durante a campanha eleitoral de 2016. E pela primeira vez em qualquer álbum de Lana, ela está  abrindo a porta para numerosos convidados vocais: A$AP Rocky, Playboy Carti, The Weeknd, Stevie Nicks e Sean Ono Lennon em uma canção referente aos The Beatles chamada Tomorrow Never Came. “Eu tive um FaceTime com Yoko, e ela disse que é a sua coisa favorita entre as que Sean já fez”, Lana diz.

Depois de ouvir o álbum, Lana e eu vamos para um pequeno escritório do outro lado do estúdio para nossa entrevista. Antes de começarmos, ela pega seu iPhone para gravar a conversa junto comigo, uma estratégia defensiva que ela definiu depois de anos se sentindo manipulada e atacada pela mídia. Quando responde perguntas, ela é pensativa e estridente, seriamente considerando os tópicos como sua tentativa de uma vida mais brilhante e como Trump afetou seu amor pela cultura americana, e também totalmente sem medo de dispensar questões que ela acha tediosas ou irrelevantes. Em certo ponto, ela ri tanto em um assunto paralelo de nossa conversa que tem um ataque de tosse e tem que fazer uma pausa. Ela diz que faz maratona de The Bachelor e enquanto todos os seus amigos a chamam de Lana — e não Elizabeth Grant, seu nome de nascimento, — seus pais são as únicas duas pessoas que não. Ela é irônica em suas nova música Groupie Love, na qual ela se descreve não como a estrela mas no papel de uma adoradora devota: “Hábitos antigos não morrem — Eu ainda amo um rock star.” Quando eu pergunto se ela se incomoda com os boatos da TMZ, que recentemente especulou sobre seu relacionamento com o rapper G-Eazy, ela dá uma inesperada e provocativa resposta: “Eles são geralmente verdade. Talvez onde há fumaça há fogo.”

O que podemos dizer: ela é quase comum, não a artista endurecida que ouvimos em suas músicas, mas é alguém, ao que parece, que gosta de se reunir e conversar sobre a música e a vida. Falar sobre bons tempos traz memórias de tempos difíceis, e quando a conversa se direciona para terreno rochoso, ela revela uma artista — e uma pessoa — em um momento essencial.

Há alguns anos, você estava cantando letras como “Eu não tenho muito mais pelo que viver”, e agora você está sorrindo na capa do álbum Lust For Life. Como você chegou a um lugar mais feliz?

Assumi alguns compromissos pessoais.

Compromissos com o quê?

Bem, eles são pessoais. [Risos] Tive algumas pessoas em minha vida que me fizeram ser uma pessoa pior. Eu não tinha certeza que podia sair dessa caixa de familiaridade, na qual eu tinha muitas pessoas ao meu redor que tinham muitos problemas, e eu sentia que isso era minha casa. Porque era tudo o que eu conhecia. Passei toda a minha vida argumentando com pessoas loucas. Senti como se todos merecessem uma chance, mas não mereciam. Às vezes, você só tem que se afastar sem dizer nada.

Seus álbuns anteriores frequentemente apresentaram um universo claustrofóbico composto por você e por uma outra pessoa, mas, de repente, é como se você estivesse de olhos bem abertos e olhando para o mundo ao seu redor.

No meu desenvolvimento, eu fiquei no mesmo lugar por um longo tempo, e levei mais tempo do que a maioria das pessoas para ser capaz de estar mais do lado de fora. Sendo naturalmente tímida, tenho que me esforçar para continuar a integrar a comunidade local, a comunidade global, e a crescer como pessoa. Além disso, se tornar muito famosa não te ajuda a crescer com a comunidade. É importante ter sua própria vida. É duro como as coisas são tão acessíveis. Hackeamentos? E-mail não é pra mim. Eu faço muito para ter certeza de não me sentir presa.

Seus fãs são conhecidos por serem obsessivos. Eles ultrapassam os limites?

Pra caralho! Alguém roubou meus dois carros. Tantas coisas assustadoras. Haviam pessoas na minha casa, e eu não sabia que elas estavam lá enquanto eu estava lá. Chamei a polícia e tranquei a porta. Obviamente, uma a cada cem mil pessoas é louca assim. Mas tive dificuldade em dormir por um tempo.

A fama pode ser isolante, mas você está fazendo um esforço real para não deixá-la ser.

É isolante. Ponto final. A menos que você se estenda através disso. Mas isso dá tanto trabalho. Superar o desconforto de ser a pessoa na sala que todos reconhecem. Nos últimos anos, eu tenho saído o tempo todo: boates, bares, shows. Por anos eu estava mais quieta, sempre entrando pela porta dos fundos, não podendo dizer pra ninguém que eu estava indo. E agora eu relaxei e simplesmente apareço. Eu não preciso de um ingresso especial. Eu só vou e sento em qualquer lugar. Eu me sinto mais como eu mesma de novo.

Se você está em dias melhores atualmente, o que você pensa quando ouve uma letra de uma canção antiga, como “Ele me bateu e eu senti como um beijo” de Ultraviolence?

Não gosto. Não. Não canto. Eu canto Ultraviolence, mas não canto mais esse verso. Ter alguém agressivo em um relacionamento era o único relacionamento que eu conhecia. Não vou dizer que esse [verso] foi cem por cento verdadeiro, mas sinto-me à vontade para dizer que eu estava acostumada a um relacionamento difícil e tumultuado, e não era por minha causa. Não veio de mim.

Agora você quer mostrar um lado diferente seu ao mundo com Lust For Life?

Não. Eu não ligo. Apenas diria que eu estou diferente. E estar um pouco diferente me faz não querer cantar esse verso. Para mim, isso era o que era. Eu lido com o que está na minha letra — não você. Eu ficava irritada quando as pessoas me perguntavam sobre a letra. Tipo, quem é você?

Você acha que romantiza o perigo em sua música?

Não, eu não gosto. É que era a única coisa [que eu conhecia]. Então estou tentando fazer uma coisa nova. Eu nunca escrevi melhor quando eu tinha conflitos acontecendo. Born To Die já estava pronto antes de qualquer merda chegar aos fãs. Quando as coisas estão bem, a música é melhor. Eu estou tentando mudar do jeito que eu achei que as coisas iam ser para o jeito que eu sinto que elas podem ser, que talvez seja um pouco mais claro.

Mas, mesmo com algumas perspectivas novas, Lust For Life ainda é, às vezes, muito melancólico. Se você faz música triste, o que você fez há tanto tempo, isso significa necessariamente que você está triste?

Sim. Acredito que para a maioria das pessoas, independentemente do que eles dizem, é provavelmente um reflexo direto do seu mundo interior. Com meu primeiro álbum, não me sentia triste. Eu me senti muito animada, e então fiquei um pouco mais confusa.

Após o lançamento de Born To Die, você encarou muitas críticas, parte delas sobre a questão de você ser ou não autêntica. Você se considera autêntica?

Com certeza. Estou sempre sendo eu mesma. Eles não sabem o que é ser autêntica. Se você pensa sobre todas as músicas que foram lançadas até 2013, era tudo muito direto e brilhante. Se isso é autêntico pra você, isso vai parecer como o oposto. Eu acho que essa merda é estilizada. Só porque eu faço meu cabelo grande não significa que eu sou um produto. No máximo, eu estou fazendo meu próprio cabelo, enchendo a merda do meu próprio enchimento se eu tiver um cabelo beehive. A música estava um lugar muito estranho quando me tornei conhecida, e eu não gostava nada disso.

Você já sentiu como se a crítica tivesse tendência misógina?

Não. As mulheres me odiavam. Eu sei o motivo. É porque haviam coisas que eu estava dizendo que elas simplesmente não se conectavam com, ou simplesmente estavam preocupadas que, se elas estivessem na mesma situação, eu as colocaria em um lugar vulnerável.

Você não estava cantando coisas empoderadoras.

Não, eu não estava. Esse não era meu ponto de vista. Eu não tinha realmente um ponto de vista — esse é o ponto.

Você percebeu que quase todas as músicas na rádio são tristes agora? Aquela canção de Lil Uzi Vert, All My Friends Are Dead, quase soa como uma música sua.

Houve uma grande mudança sônica culturalmente. Eu acho que eu tive muito a ver com isso. Eu ouço muitas músicas que se parecem com aquelas que gravei no início. Seria estranho dizer que não. Eu me lembro que, sete anos atrás, eu estava tentando conseguir uma gravadora, e as pessoas estavam tipo: “Você tá brincando? Essas músicas? Há um mercado zero pra isso.” Isso foi há muito tempo, quando as pessoas tinham que se encaixar naquela caixa pop.

Com todas as críticas que você recebeu através dos anos, particularmente depois de Born To Die, algumas pessoas teriam jogado a toalha. Mas você insistiu e fez um álbum ainda mais fodido, quase hiper-Lana, com Ultraviolence.

Eu insisti mesmo. [A crítica inicial] me fez questionar a mim mesma — eu não sabia se sempre seria daquela forma. Você não pode lançar álbuns se noventa porcento das críticas em lugares como o The New York Times vão ser negativas. Isso seria loucura. Faria sentido voltar atrás totalmente, mas eu estava tipo, me deixe lançar mais álbuns e ver se eu posso simplesmente ficar no olho da tempestade. Não muda muito. Me deixe apenas tirar um pouco [da produção] para que você possa ouvir as coisas um pouco melhor; Eu pensei que talvez as pessoas estivessem se distraindo. Eu fiz a mesma coisa com Honeymoon. Todo mundo aqui ouviu e disse: “É um bom álbum, mas você sabe que não vai estar na rádio, certo?” E eu fiquei tipo: “Sim. Eu disse ao [executivo da gravadora] Jimmy [Iovine] quando eu assinei, ‘Se você quer me contratar, isso é tudo que sempre será.” Eu estava tão comprometida com fazer música porque eu acredito no que eu faço. Tudo que eu tinha que fazer era não desistir.

Então aquela mulher do Ultraviolence que está cheia de turbulências — ela ainda está aqui em Lust For Life?

Veremos. Essa tem sido minha experiência até agora, mas, tipo, estou tentando.

Algumas das músicas mais vagas e sinceras em Lust For Life me lembraram da canção Black Beauty, presente no álbum.

Essa é uma música triste. Nessa música — [ela canta] I keep my lips red like cherries in the spring / Darling you can’t let everything seem so dark blue — essa é uma garota que ainda está vendo o céu azul e colocando um pouco de cor apenas para ela mesma. Mas essa [outra] pessoa — é tudo preto pra ela. E meu mundo se tornou cheio de tinta com esses sobretons. [Aqui, Lana começa a chorar, e pausa por um momento.]

O que fez você chorar justo agora?

Naquele momento, quando eu disse “um pouco de cor,” eu me conectei com aquele sentimento de ser capaz de ver apenas uma porção do mundo em cores. E quando você se sente desse jeito, você pode se sentir presa.

Você está vendo o mundo em cores agora?

[Suspira] Eu não sei realmente como descrever minha perspectiva neste momento.

Mas você está tentando, e isso é o que Lust For Life é sobre?

Não é. Eu não sei sobre o que é. Eu não sei o que é.

O álbum é um jeito de dizer que pelo menos você quer ser feliz?

Não. É apenas que algo está acontecendo.

O que te faz feliz?

Eu sou bem simples. Eu amo a natureza. Eu gosto de caminhadas. Ficar perto da água — eu não entro nela sempre. Eu amo os elementos. Tocar em festivais ao ar livre. Amo esse sentimento.

O que te desanima?

Sentir como se estivesse andando pra trás.

Há uma história no álbum?

Sim.

Qual é a história?

Você tem que descobrir.

Há apenas alguns anos você estava dizendo que não se importava com o feminismo, e agora você está escrevendo músicas-protesto e meditações sobre guerra e paz.

Porque as coisas mudaram culturalmente. É mais apropriado agora do que sob a administração de Obama, onde pelo menos todos que eu conhecia se sentiam seguros. Era um bom tempo. Nós estávamos indo para cima e acima.

As mulheres começaram a se sentir menos seguras instantaneamente nessa administração. E se eles tirarem o Planned Parenthood? E se não pudermos ter contraceptivos? Agora, quando as pessoas me fazem essas perguntas, eu me sinto um pouco diferente. A razão pela qual eu pedi para Stevie Nicks estar no álbum é porque ela muda quando o ambiente muda, e eu também sou assim.

Em When The World Was At War We Kept Dancing, eu escrevi: “Boys, don’t make too much noise / Don’t try to be funny / Other people may not be understanding.” Tipo, você poderia diminuir esse discurso excessivamente barulhento? God Bless America – And All the Beautiful Women In It é um pequeno grito para as mulheres e para qualquer um que não se sentem seguros andando pelas ruas tarde da noite. Era nisso que eu estava pensando quando escrevi “Even when I’m alone I’m not lonely / I feel your arms around me.” Não é como eu me sinto quando estou andando pela rua, mas as vezes na música eu tento escrever sobre um lugar que eu estou tentando chegar.

Você se sente insegura?

Eu me sinto menos segura do que me sentia quando Obama era presidente. Quando você tem um líder no topo da pirâmide que está casualmente sendo estrondoso e engraçadinho sobre coisas assim, isso traz à tona defeitos de caráter em pessoas que já eram propensas a serem violentas contra mulheres. Eu vi isso instantaneamente em Los Angeles. Andando pela rua, as pessoas diziam coisas que eu simplesmente nunca tinha ouvido.

Quando as pessoas me perguntavam coisas feministas antes, eu estava tipo: “Eu não estou realmente vivenciando discriminação pessoal como mulher. Eu sinto que estou indo bem. Eu lidero shows do mesmo jeito que The Weeknd faz. Eu tenho muitas mulheres na minha vida, amo mulheres e apoio mulheres.” Eu sentia tipo, por que não falamos sobre a música primeiro? Eu posso te dizer que o que eu tenho feito pelas mulheres é contar minha própria história, e isso é tudo que qualquer um pode fazer.

É mais difícil ser romântica sobre a América quando Trump é a maior celebridade da nação?

Certamente é desconfortável. Eu definitivamente mudei meus visuais nos vídeos da minha turnê. Eu não terei a bandeira americana tremulando enquanto canto Born To Die. Não vai acontecer. Eu preferiria ter equilíbrio. É um período de transição, e eu estou super consciente disso. Eu penso que seria inapropriado estar na França com uma bandeira americana. Eu me sentiria estranha com isso agora — mas não me sentia estranha em 2013.

Todos os caras no estúdio — nós não sabíamos que começaríamos a conversar todos os dias e falar sobre o que estava acontecendo. Nós nunca fizemos isso antes, mas todos os dias durante a eleição, eu acordava e algo horrível estava acontecendo. A Coreia [do Norte], com mísseis repentinamente sendo apontados para a costa ocidental. Com When The World Was At War We Kept Dancing eu estava propondo uma real questão pra mim mesma: Seria esse o fim de uma era? A queda de Roma?

A nostalgia pode ser bem tola quando não é feita direito, e você é toda sobre nostalgia. Como você tenta fazer isso certo?

Eu sei que ando em uma linha às vezes. [Risos] Eu vi comentários que fizeram sobre a minha pequena canção Coachella – Woodstock In My Mind. Eu escrevo esse título e fico tipo: “OK, eu sei que estou “indo lá”. Mas eu acho que é maravilhoso. É preciso. É tão preciso. Mas às vezes as coisas simplesmente são o que são. Eu estou no Coachella por três dias, e a Coreia do Norte está apontando mísseis para nós, e eu estou assistindo Father John Misty com a minha melhor amiga, que é sua esposa — isso é tudo que eu estou literalmente dizendo. É tipo, sim, eu sou hipster. Eu sei disso. Saquei.

Você mencionou trabalhar com Stevie Nicks nesse álbum. Como foi gravar com ela?

Ela veio direto de um avião do seu último show em tipo 60 cidades, os quais eu deveria ter feito o show de abertura. Ela me pediu, mas eu fiquei tipo: “Ai meu deus.” Mas eu não podia porque eu não quero fazer uma turnê de 60 shows.

Ela voou pela porta. Luzes loiras, óculos ouro-rosé, unhas com pontas douradas, batom ouro-rosé, correntes de ouro, anéis de ouro, preto sobre preto sobre preto. Muito estilosa. E enquanto isso, eu parecia uma dona de casa — flanela sobre flanela, porque era uma noite fria. E eu fiquei tipo, por que eu não me vesti direito pra Stevie Nicks?

No final da canção, ela canta, então eu canto, então ela canta novamente. Eu estava meio que envergonhada. Eu estava: “Eu pareço tão pequena em comparação com você”, e ela, “Isso é bom, você é meu pequeno eco.” E eu pensava: Stevie me chamou de seu pequeno eco. Era uma pequena coisa estúpida, mas ela era muito nutritiva dessa maneira, e não depreciando o fato de eu ter uma voz mais sussurrada, o que eu nem sabia até que eu estivesse ombro a ombro em uma faixa com alguém com menos ar em sua voz. Eu me senti um pouco mais exposta naquele momento. Mas ela estava como: “É você. Você é só você.”

Falando de ícones musicais, você pode me contar sobre tocar na festa de casamento de Kim e Kanye?

Foi uma surpresa para Kim. Eu não a conhecia. Cantei Young and Beautiful, Summertime Sadness, Blue Jeans. Kanye pediu por Young and Beautiful. As garotas — as Kardashians — foram tão agradáveis. Havia apenas uma fila, apenas eles, bem ali. Eles estavam vivendo por aquele momento. Então começaram a tocar os discos de Kanye e Jay-Z durante o resto da festa, choveu e todos estavam apenas dançando na chuva. Fique por volta de 40 minutos e depois fui embora.

As pessoas fizeram um grande alvoroço sobre aquele cordão que você estava vendendo que parecia conter uma colher para cocaína. Era realmente isso?

Sim. Isso é algo engraçado. Eu tenho um frasco e um isqueiro também. Mas não uso cocaína.

Você disse no passado que não estava bebendo mais, mas ainda sim isso aparece em sua música. Você bebe atualmente?

Sem comentários.

Você canta muito sobre drogas e álcool.

Não neste CD. Eu costumava usar muitas drogas, mas efetivamente não mais.

Que tipo de drogas você costumava usar?

Sem comentários. [Risos] Mas acho que a colher de cocaína é uma coisa divertida. Eu estou tipo: “tudo bem”. Não creio que isso vai levar alguém a usar cocaína.

Você está ciente quando você está se aproximando de um tabu durante o seu trabalho?

Na verdade não. Esse é o tipo de coisa que não paro pra pensar sobre. Eu estou lá, mas tem momento que não sei estou de verdade. Tem certas coisas que são chocantes e sei que há pessoas que estão tipo “Okayyyy”.

Como cantar sobre a morte?

Essa é a vida real. Super vida real.

Você foi muito criticada por dizer que “gostaria de estar morta” para um jornalista alguns anos atrás.

Foda-se aquele cara. Não imaginei que ele publicaria isso e transformaria em uma manchete. Eu estava passando por um momento muito difícil. Estava na estrada por um ano. Eu estava realmente derrotada. Eu era tão estúpida, eu estava tipo: “Eu quero morrer, caralho.” Talvez eu realmente queria. Eu não sei de verdade.

Qual dos seus álbuns é o mais autobiográfico?

Todos eles. No último álbum — escuto uma música, como Terrence Loves You, e eu realmente me identifico com ela na hora. A pessoa que eu estava cantando sobre — [cantando] You are what you are/I don’t matter to anyone — eu realmente disse que não sou importante pra ninguém? Isso é loucura.

Você se sentiu assim?

Acredito que sim. Eu expressei isso.

O que faz você se sentir orgulhosa?

Meus álbuns. Eu amo meus álbuns. Eu os amo. Estou orgulhosa da maneira como coloquei partes da minha história em músicas de forma que só eu entendo. Em termos do meu indicador do que é bom, isso é exatamente o que penso. Eu tenho uma base interna que é a única coisa na qual me baseio. Minha própria opinião é muito importante para mim. Ela começa e para nessa base.

Tradução por Giovana Parisi, Thiago Muniz e Thiago Goedert. – Equipe Lana Del Lovers.
Entrevista original por Alex Frank ao Pitchfork.
Ilustração de capa por Juliette Toma.

  • Arthur Cobat

    QUE ENTREVISTA MARAVILHOSAAAA. Acho que a melhor que já li dela. Sensacional <3