Lana Del Lovers
Lana Del Rey por Sebastien Micke para a revista francesa 'Paris Match' de 2017.

Lana Del Rey fala sobre novo álbum, Francesco Carrozzini, felicidade e muito mais em entrevista à ‘Vanity Fair’

Em entrevista à edição italiana da revista Vanity Fair, Lana Del Rey falou sobre seu novo álbum, carreira, Francesco Carrozzini, Donald Trump e muito mais. Leia abaixo a tradução da entrevista:

Seu primeiro álbum chama-se Born To Die [nascida para morrer, em tradução para o português], seu último álbum é intitulado Lust For Life[desejo pela vida, em tradução para o português] não é por acaso. Lana Del Rey está mais feliz e menos obscura ultimamente, ela encontrou o compromisso político. Livrou-se de todas as máscaras aonde ela tinha o costume de se esconder, mas ainda guarda lindas memórias de seu passado. Algumas mais especiais do que outras, e algumas dessas memórias são italianas.

Ela admite que algo mudou e veio à minha mente que o primeiro sinal disso talvez seja o seu sorriso na capa do álbum, apesar de ser bem irônico. Margaridas em seu cabelo, um longo e branco vestido hippie e um sentimento retrô que lembra o Verão do Amor [fenômeno social com manifestações em várias partes do mundo em meados de 1967 durante o verão do hemisfério norte]. E então temos os títulos dos seus álbuns, que não dão explicações com exceções de algumas dicas: Nós passamos de Born To Die, 2012, seu primeiro álbum, para o último, lançado há alguns dias, Lust For Life.

“Há respeito dos títulos que parecem se espelhar: eu percebi depois de muito tempo, não foi algo pensado com antecedência, mas eu realmente gosto da ideia, eu acho legal pra caramba. Para mim simboliza o começo de um novo capítulo. Mas o conteúdo desse novo capítulo ainda não foi decidido”, ela diz antes de cair na risada, e não é a única vez que ela faz isso durante essa conversa. Falando de Los Angeles, Lana Del Rey fala tão lentamente que você pode ouvir um som de música e pessoas conversando.

Conspiradores de teorias da indústria fonográfica provavelmente terão muito à dizer sobre essa mudança, saindo de uma personagem obscura de David Lynch cantando sobre morte, violência, amor sem esperança, para uma popstar californiana, sempre triste mas com características hippies (também há um dueto com Sean Ono Lennon, chamado Tomorrow Never Came e ela nos disse porque o escolheu: devido ao conceito de “paz e amor” que corre por suas veias).

Quando Lizzy Grant mudou seu nome artístico para Lana Del Rey, com sua primeira canção, Video Games, ganhando milhões de visualizações no YouTube, ela foi contestada: seu visual era considerado muito perfeito, muito planejado antecipadamente, aquela imagem gótica — ela parecia ser um produto do marketing, com nada de autêntico. “Uma reflexão dos nossos pesadelos comuns sobre cinismo e a falsa cultura americana”, isso foi escrito pelo The New York Times. Era 2011. Eventualmente, sua carreira nos contou outra história. Teve álbuns de sucesso, como Ultraviolence e Honeymoon, novos escândalos, um importante caso de amor com Francesco Carrozzini, filho de Franca Sozzani, que morreu dezembro passado, e acima de tudo, sua vontade de seguir em frente, entre haters e fãs leais.

Você ainda tem aquela tatuagem que diz “não confie em ninguém”?

Sim e eu nunca entendi porque a fiz, eu acho que foi uma mensagem sutil para mim mesma. Primeiro pensei ter feito por diversão, mas em um certo momento eu não estava tão certa disso.

Você já foi traída várias vezes?

(Risos) Eu diria que boa metade dos meus namorados me traíram. Eu nunca fui boa em escolhê-los.

Mas hoje você canta sobre seu desejo pela vida. Isso é uma afirmação?

Sim, acho que sim.

Então isso significa que você está mais feliz?

Quando eu comecei a fazer este álbum e eu escrevi Love, o primeiro single, eu estava em um estado onde fazer esse tipo de afirmação era muito fácil e eu queria mudar.

Como você mudou?

Nos dois últimos anos muitas coisas aconteceram que me tornaram uma pessoa diferente. Relacionamentos, ideias. Essa é a direção que eu estou indo: mais cores, mais luz, um som com gostinho dos anos setenta.

Como essa luz que você está falando irradia?

Lindas melodias, uma característica dos anos sessenta mas com uma atmosfera contemporânea. É o tom das minhas músicas que está diferente: elas são o que são, sem barreiras, sem coberturas.

E o que essas coberturas costumavam esconder?

A história que eu estava contando. Para que os ouvintes não fossem capazes de entender e simpatizar. Para mim é uma realização ter me livrado delas.

É uma nova estação para você.

Eu gosto dos meus últimos álbuns, eu contei minha vida inteira neles e foi um desafio muito difícil fazê-los. Com Lust For Life eu senti como se eu pudesse ficar mais relaxada e experimentar coisas diferentes, como ter outras pessoas no meu álbum e, ao mesmo tempo, ter a oportunidade de continuar na minha zona de conforto.

Love é um hino para a juventude, a sensação de ter possibilidades infinitas em suas mãos.

Sim, é um sentimento que eu tenho com frequência,  de que eu posso fazer tudo. Eu gosto da minha vida. Após passar um dia no estúdio, eu saio e faço o que quiser com meus amigos, como ir à praia ou apenas passear pela cidade. Hoje em dia eu só vejo pessoas que me fazem bem e que dão energia para a minha vida. Love fala sobre essa energia que você tenta crescer dentro de si mesmo.

E mesmo assim há alguns anos atrás você disse em uma entrevista que gostaria estar morta. Foi um escândalo: você se arrepende dessa afirmação?

Não, eu não me arrependo porque eu realmente pensei isso. Foi uma época difícil na minha vida. Eu só nunca pensei que o jornalista publicaria essa frase. Eu estava fazendo uma turnê por quatorze meses e nesse tipo de situação as únicas pessoas com quem você mais conversa são jornalistas. Com essa pessoa em particular, eu tinha criado um relacionamento confidencial. Foi assim que aconteceu. Minha culpa foi em ter sido muito ingênua.

Você passa bastante tempo na Itália. O que você aprendeu sobre nosso país e nosso povo?

Eu descobri que a Itália é tão bonita quanto você vê nos filmes. Minha experiência foi realmente emocionante: quando eu estava em Milão, costumava fazer parte de um mundo que era diferente de tudo. Naquela época eu conhecia apenas alguns italianos e seus amigos, e seus amigos eram pessoas com um grande senso de liberdade, eles eram livres, eram artistas, cheios de alegria e tinham esse lema em suas mentes: viva e deixe viver. E então havia a moda.

Que tipo de relacionamento você teve com Franca Sozzani?

Eu tinha o costume de vê-la com frequência, isso porque ela ficava conosco sempre que estávamos na Itália. Eu era uma grande fã, eu realmente admirava a forma como ela trouxe a moda italiana para o topo do mundo, eu acho extraordinário. E ela era extraordinária também.

E que tipo de memórias você ainda guarda do seu amante italiano?

Os dias com um ritmo lento e bonito que passamos em Portofino, um lugar dos sonhos; jogar futebol em Miami com seus amigos italianos; passar tempo com sua mãe.

E até quando você estava na Itália você era seguida por paparazzi. Você sempre diz não gostar da fama.

Não é que eu não goste da fama, eu apenas considero um jogo completamente diferente que não tem nada a ver com música. Quando eu morava em Londres, tinha o costume de sair de bicicleta e era tão fácil ser reconhecida que eu sempre terminava sendo pega por paparazzi. E então eu aprendi alguns truques, é preciso alguns anos para se acostumar com esse tipo de vida. Agora está tudo bem, eu definitivamente me sinto à vontade.

Qual é a pior parte em ser famosa?

Eu não sei.

Você tem muitos haters.

(Risos) Talvez essa seja a pior parte em ser famosa.

Esse álbum tem mais política envolvida do que nos outros. Por que?

Eu era uma garota com uma boa voz, que adorava cantar e que sabia que seria uma musicista. Depois da minha estreia, passei muito tempo tentando entender o que estava acontecendo comigo. Quero dizer, eu estava descobrindo quem eu era, então isso significa que eu não estava pronta para expressar minha opinião sobre problemas que estavam acontecendo no mundo. Agora, seis anos após Video Games, eu me sinto parte de uma comunidade, então posso participar dessa conversa social onde milhões de pessoas estão envolvidas.

Tem uma música no álbum chamada God Bless America – And All Beautiful Women In It dedicada às mulheres americanas.

Sim, isso é porque nós somos as mais afetadas por essa nova administração. Apenas pense sobre todas as coisas acontecendo com a Planned Parenthood, a tentativa de ilimitar o acesso ao controle de natalidade. Eu sou apenas uma de várias mulheres que se sentem indignadas.

Mas as feministas nunca te amaram.

No começo da minha carreira, as pessoas queriam me classificar como “a cantora que não gosta das feministas” por causa das coisas que eu estava cantando, então recebi muitas perguntas sobre o tema. Eu nunca respondi, nunca quis entrar no mesmo nível desse tipo de discussão. Sempre acreditei que música vai além de tudo, e em um ano como esse em que estamos vivendo no EUA é natural falar para mulheres e dizer: eu estou com você.

Falando sobre Donald Trump, você postou algumas fórmulas mágicas no Twitter para se livrar dele…

Eu li em algum lugar que bruxas de todas as partes do mundo estavam organizando um ritual contra o presidente. Era uma piada, obviamente. Foi tão difícil assim de entender?

Tradução por Luana Lima. – Equipe Lana Del Lovers.
Entrevista original por Valentina Colosimo à Vanity Fair italiana.