Lana Del Lovers
Lana Del Rey por Thomas Whiteside à 'ELLE' britânica de 2017.

Lana Del Rey fala sobre o início de sua carreira, amigos, vida, novas canções e muito mais em entrevista à ‘ELLE UK’

Em entrevista concedida à edição de junho da revista ELLE UK, Lana Del Rey falou sobre o início de sua carreira, amigos, vida, novas canções e muito mais. Leia abaixo a tradução da entrevista:

Lana Del Rey realmente vive dentro da letra “H” do letreiro de Hollywood e passa a maior parte de suas noites empoleirada acima do caos que assombra a cidade dos anjos abaixo, como o trailer de seu novo álbum, Lust For Life, sugere?

Ou ela aluga uma casa em Santa Mônica, no condado de Los Angeles, ou em Silver Lake ou em algum outro lugar que ela não está prestes a divulgar, neste caso, onde, em fevereiro, postou um tuíte enigmático para que seus 6.3 milhões de seguidores bem-intencionados do Twitter aparecessem em sua porta com os “ingredientes mágicos” para lançar feitiços contra presidente Donald Trump?

Ela realmente apenas molha levemente seus dedos na lama da cidade de vez em quando, como diz no trailer de seu álbum? Ou ela na verdade sai bastante, como ela me diz quando nos encontramos, e passa suas noites se divertindo com um pequeno grupo formado principalmente por amigos músicos, dançando em festas particulares, indo a apresentações e ocasionalmente roubando o microfone dos seus amigos homens para cantar Hotel California em bares karaokê? Nesse mundo pós-verdade, parece pedante se importar demais com isso de qualquer forma.

A “verdadeira” Lana Del Rey é uma mulher de 31 anos de idade chamada Elizabeth Woolridge Grant, nascida em Lake Placid, Nova Iorque. Ela é bem próxima de sua irmã mais nova Chuck Grant, uma fotógrafa, mas nem tanto de seus pais, Patricia e Robert, e de seu pequeno irmão, Charlie. Eles são uma família individual, ela me conta: “Foi natural seguirmos cada um nossos caminhos separados, e permanecer neles.”

Estamos sentados um ao lado do outro num sofá no estúdio de gravação de Los Angeles, onde ela tem criado seu trabalho mais musicalmente realizado — o álbum acima mencionado, Lust For Life, está destinado a ser o som deste verão. Lana está totalmente presente, inteligente, engraçada, envolvente e refrescantemente capaz de rir de si mesma. Ela usa jeans e uma camisa vintage e fala suavemente, mas com uma certeza convincente. O que me faz gostar mais ainda dela é o fato de que nenhuma quantidade de cotidiano nega a mágica que ela exala como performer. Para seus fãs, Lana existe em um piscante filme Super-8; a Manic Pixie Dream Girl [arquétipo dado a personagens femininas que aparecem em filmes para mudar a vida dos protagonistas homens]que não vem com a bagagem de dias ruins, mas está apenas ali para você em uma fantasia com filtro Valencia. Ela é uma ideia de mulher que não cresceu em lugar nenhum, mas emergiu completamente formada do elevador do hotel Chateau Marmont. Ela é uma montagem de Americana, finalizada com um toque de delineador preto.

Amba a realidade e a fantasia de Lana Del Rey constituem um totalmente formado, embora excepcional, ser humano. Mas, como Lana me diz, habitar esses dois mundos nem sempre foi fácil: “Eu sei que se eu tinha mais de uma persona antes [quando ela lançou seu sucesso de estreia, Video Games, na internet em 2011], eu tenho menos de uma agora. E eu acho que isso vem diminuindo e ficando antiquado. Talvez eu precisasse de um visual mais forte ou algo do tipo para poder me apoiar. Mas eu sinto que hoje não é difícil, pra mim, fazer um grande show em um jeans, sem ensaiar e continuar sentindo que eu vim do lugar certo.”

Eu sugiro que o escrutínio sob o qual Lana foi posta pela mídia por ter uma persona melancólica foi injusto. Todo mundo, em algum grau, apresenta um diferente lado de si mesmo no trabalho, certo? Ademais, ela não é a primeira artista a mudar seu nome ou a ter uma figura distinta nos palcos. Ainda, inúmeras conspirações questionaram sua aparência, talento e panorama familiar na época que seu segundo álbum, Born To Die, foi lançado em 2012, mas Lana é notavelmente compreensiva.

“Olhando para trás agora, eu entendo um pouco mais do que eles falavam. Quando eu estava no meio dessas opiniões e críticas, eu estava tipo, ‘Que? Eu faço meu cabelo e minha maquiagem da mesma forma que todo mundo para minhas fotos e meus shows, e sim, minhas músicas são melancólicas, mas muitas outras também são.’ Então, ver um monte de outras artistas mulheres não serem criticadas me fez pensar, ‘Qual é o problema comigo?”

Em retrospectiva, ela diz entender porquê da crítica e da intriga a respeito de sua autenticidade como artista: “Eu acho que tem a ver com energia, realmente acho. Eu não falava abertamente ‘Estou infeliz’ ou ‘Estou com dificuldade’ na minha música, mas eu acho que talvez as pessoas perceberam isso e falaram, ‘Se você vai fazer esse tipo de música, é melhor assumir de uma vez.’ Mas eu não acho que eu realmente sabia o que estava sentindo. Quando as coisas se tornaram um pouco maiores com a música, eu ainda estava tentando descobrir o que era importante pra mim.”

Eu tenho a impressão que ela descobriu muitas coisas nos últimos anos, como muitos de nós no começo de nossos 30 anos também fez. A diferença com Lana, é claro, é que sua experimentação, erros e arrependimentos foram usados para consumo do público. Eu menciono aquele profundo sentimento que tenho quando me deparo com algum diário antigo ou um post do Facebook que parece vir de um lugar totalmente diferente de onde estou agora. Pergunto se ela se identifica.

Eu tenho a impressão que ela descobriu muitas coisas nos últimos anos, como muitos de nós no começo de nossos 30 anos também fez. A diferença com Lana, é claro, é que sua experimentação, erros e arrependimentos foram usados para consumo do público. Eu menciono aquele profundo sentimento que tenho quando me deparo com algum diário antigo ou com uma publicação do Facebook que parece vir de um lugar totalmente diferente de onde estou agora. Pergunto se ela se identifica.

“Isso se aplica a mim”, ela diz. “Eu tenho momentos desconfortáveis. Certas coisas que eu disse e músicas que fiz, principalmente aquelas que vazaram… Quer dizer, não são as minhas melhores.”

Ela está falando sobre quando seu computador foi hackeado em 2010 e centenas de músicas inacabadas foram lançadas na internet, sem sua permissão. Foi uma invasão horrível de sua privacidade, e isso leva a uma discussão sobre vulnerabilidade que apesar de interessante, é uma palavra que ela não acha que tenha se aplicado a ela um dia.

Eu perguntei a ela o que cantar no palco exige emocionalmente dela e o que ela ganha disso, já que seus shows em anfiteatros geralmente suportam uma capacidade de 24.000 pessoas. Ela olha para mim com um olhar um tanto vulnerável e diz: “Bem, isso depende do dia. Se estou tendo um bom dia, continua exigindo bastante de mim, mas a maior parte disso é físico. Eu tento ter força e cantar de coração, logo eu preciso estar bem e ter dormido bastante. Claro que também ajuda se minha vida pessoal está tranquila; Quando você está no palco por uma hora e 40 minutos, você começa a pensar enquanto canta. Não gosto de ter pensamentos incertos ou preocupantes, pois assim posso me concentrar na multidão.”

Depois de uma apresentação, ela fica reflexiva e precisa de um tempo para processar isso. “Não é como você fazer algo que não acontece; É uma experiência real. Conheço bandas de rock que dizem que eles amo pra c*****o isso e que fariam [apresentações] todas as noites e nada mais. Eu não sei se isso é tão intenso para eles [quanto é para mim].”

Voltando para esta necessidade de se sentir bem e ter uma vida social “tranquila”, Lana já viveu tanto em Nova Iorque quanto em Londres, mas diz que Los Angeles está começando a parecer como um lar, e isso está ocupando um grande espaço naquilo que a faz feliz no momento. “Estou criando raízes e encontrando muitos outros amigos, então me sinto mais familiarizada.” No seu tempo livre ela ama nadar no mar. “Tenho uma amigo chamado Ron que gosta de nadar comigo. Então, de vez em quando, encontramos uma praia vazia, entramos no mar e nadamos o comprimento da costa, de um lado da baía ao outro.”

Seus amigos são sua família, diz Lana, e é por isso que ela não pode aceitar nada menos do que total honestidade e confiança deles: “O fato de que eu sei que agora tudo está muito mais claro. O interessante é quão inseguro nós [poderíamos] nos sentir entre si se não pudéssemos expressar como realmente nos sentimos. É difícil saber que se você diz a alguém exatamente como você se sente, se você está feliz ou infeliz, isso poder ser o fim do relacionamento, porque os dois não se sentem da mesma maneira.”

Lana está gostando de fazer parte de uma cena musical em Los Angeles, onde seus amigos incluem a fotógrafa Emma Tillman (esposa do cantor e compositor Father John Misty), Zach Dawes, que tocou baixo com o supergrupo britânico The Last Shadow Puppets, e músicos Jonathan Wilson e Cam Avery. Eles tocam música juntos, o que é algo que ela nunca fez com amigos antes. A primeira vez em que jantou com o grupo inteiro, ela refletiu: “Uau, isso é ótimo.” Ela me conta: “Se sentir parte de alguma coisa é definitivamente um sentimento bom.” O ponto negativo de sair com um grupo de músicos é que o karaokê se torna um esporte competitivo. “Se eu estou com os caras, eles estão sempre no microfone e algumas vezes é difícil tirá-lo deles. Todos fingem que não se importam, mas você pode perceber que em alguns momentos nos refrões as pessoas estão realmente cantando.”

Nós rimos e me senti agradecido por poder encontrar Lana em um momento de sua vida, descrito por ela como: “Todas as dificuldades por quais passei — que eu coloquei para fora [em meus trabalhos] — não existem mais para mim. Nem todos os meus relacionamentos românticos eram ruins, mas alguns deles me desafiaram de uma maneira que eu não queria ser desafiada e estou feliz por não ter que fazer isso agora.”

Não pretendo ser um estraga prazeres, mas pergunto se ela sente, quando admite que está feliz, que algo ruim possa acontecer de repente? Sim, às vezes. Eu tenho um pouco desse sentimento humano de ser supersticiosa. Às vezes eu digo pros meus amigos, ‘Eu não quero trazer má sorte.’ Ou se estou no telefone eu fico tipo ‘Eu estou tão empolgada com isso’, e espero por aquela ligação no dia seguinte…. Mas não existe isso de trazer má sorte. Só deixe pra lá.”

A chave para a felicidade, ela diz, é perguntar a si mesmo o que vai fazer você feliz: “Eu tento não fazer nada que não [me faça feliz], mesmo que seja um show em um lugar que não é para mim. Tão simples: sempre costumava me perguntar isso, mas nunca ouvia a resposta porque eu sabia que provavelmente ia fazer aquilo de qualquer jeito. Se alguém realmente precisasse de mim para fazer algo, eu provavelmente agiria tipo, ‘OK!'”

Eu reflito se nós colocamos muita ênfase em ser felizes e se isso em si causa estresse e ansiedade, mas Lana apaixonadamente discorda: “Não! Eu acho que a felicidade é o objetivo final da vida, e acho que é a única coisa que realmente importa. Não há mecanismos que indicam a rota para a felicidade, e este é o problema. Acho que as pessoas estão infelizes na escola — a estrutura educacional tem sido a mesma por um longo tempo e os estudantes ainda não estão satisfeitos com suas experiências educacionais. E você não tem conversas suficientes quando você é jovem sobre o que faz um relacionamento satisfatório e mútuo. Essas experiências de vida coletiva — sua juventude, sua educação acadêmica e sua educação sobre negócios, casamento ou metas de relacionamento — todos elas levam à sua felicidade coletiva. Acho que o ênfase está nas coisas erradas e isso vem acontecendo por muito tempo.”

Lana me diz que ela está mais engajada socialmente do que nunca; Seu quinto e último álbum é uma mistura de introspecção pessoal e hinos esperançosos, como God Bless America, na qual ela canta: “Deus abençoe a América e todas as mulheres bonitas nela.” Ela diz que, com essa gravação, ela estava lutando por um sentimento de que estamos todos juntos nisso: “Eu acho que seria estranho estar fazendo um álbum durante os últimos 18 meses e não comentar como [o cenário político] estava me deixando ou como eu sabia que as pessoas se sentiam, o que não é bom. Seria muito difícil se minhas visões não estivessem alinhadas com tudo aquilo que as pessoas estavam falando.”

Discutimos sobre sermos constantemente bombardeados com notícias e pontos de vista de outras pessoas em nosso mundo hiper conectado, e pergunto como ela reconcilia seu bem-estar pessoal com o sentimento coletivo de que todos vamos para o inferno em um carrinho de mão.

“Eu acho que é um equilíbrio, realmente acho. Você é tão sortudo se você tem uma boa saúde e uma boa energia porque é preciso muito pra ser um humano responsável. Responsável por você mesmo, pelos outros, e responsável por saber quando não deve ir fundo no mundo das notícias, mas ainda assim ser politicamente informado e não desconectado. Na minha vida, é como andar em uma corda bamba. Eu leio as notícias, mas não leio antes de dormir; não leio quando eu acordo e não leio no meio das sessões de gravação. Eu tenho momentos para checar tudo e entrar no ritmo, mas eu mantenho minhas coisas sagradas.”

E sobre seu hino para as mulheres americanas? “Eu escrevi ‘God Bless America’ [uma faixa do álbum] antes da Marcha das Mulheres [em janeiro de 2017], meio que previ o que iria ocorrer… Assim que a eleição terminou, eu sabia o que ia acontecer. As pessoas estavam mais ativas nas mídias sociais e na vida real, então percebi que várias mulheres estavam nervosas sobre alguns projetos que poderiam ser aprovados e que iriam afetá-las diretamente. Então sim, é uma resposta direta em antecipação do que eu pensei que iria acontecer, e que aconteceu.”

Prever as Marchas das Mulheres deve ter requerido de um esperto instinto social, ou algum tipo de magia direto do seu mundo alternativo do trailer de Lust For Life. De qualquer forma, não há como negar a pulsação contemporânea das batidas do novo álbum de Lana, desde sua colaboração pop com The Weeknd na faixa-título até o sentimental dueto com o filho de John Lennon, Sean, e a minha favorita pessoal, Yosemite, uma linda canção sobre a forma que os relacionamentos mudam conforme o tempo.

Depois que ela me toca esta faixa na própria sala em que a mesma foi gravada, não posso deixar de perguntar como Lana é sendo uma namorada. “Sou maravilhosa. Sou a melhor”, ela brinca, antes de esclarecer, “Eu realmente sou a melhor namorada, porque eu só entro em um relacionamento se eu estiver realmente animada com isso. Eu sou incondicionalmente compreensiva, muito amorosa e gosto de estar com a pessoa por muito tempo.” Depois de ouvir o refrão de Yosemite o qual ela não é mais uma vela ao vento — o que significa que ela achou uma luz fixa em sua vida — me pergunto quando o que ela procurava em um relacionamento também mudou. “Para mim, o sonho é de se ter um pouco de objetivação, de coisas sensuais, de magnetismo, de companheirismo, de um concordar com o outro e essas coisas; sem as características de uma pessoa realmente egoísta e que só bota em prioridade suas necessidades como são a maioria dos vocalistas se estivermos falando sobre músicos!” (Lana namorou anteriormente o escocês Barrie-James O’Neill, o vocalista principal da banda de rock alternativo Kassidy.) “Vou escrever um livro chamado: ‘A maldição do vocalista e por que você sempre deve namorar um baixista’.”

Lana sorri, toma um gole de seu café gelado, e diz: “Eu acho que tenho uma pequena fantasia de que grandes relacionamentos, amizades e romances conseguem vencer o teste do tempo. Mesmo que cada pessoa na relação ou no grupo mude, elas não mudam de forma que façam essa relação chegar a um fim. O refrão [de Yosemite] é sobre fazer coisas por diversão, por liberdade, e fazê-las pelas razões certas. Trata-se de ter integridade artística; Não fazer as coisas porque você acha que será grande, mas porque a mensagem é algo que é importante. Além disso, é sobre apenas estar com alguém porque você não consegue enxergar sua vida sem essa pessoa, não porque é ‘benéfico’ para você estar em sua companhia. É o conceito de estar em um relacionamento 100% pelas razões certas. Ser uma boa pessoa, basicamente.”

Lana Del Rey é mercurial [pessoa sujeita a mudanças repentinas ou imprevisíveis de humor ou pensamento] — quando você pensa que você a tem, ela desliza através de seus dedos como mercúrio —, mas durante esta entrevista, acho que a vejo claramente: uma artista que está despontando da ambiguidade da juventude e emergindo em uma mulher com uma visão autêntica para sua vida e sua arte. Sim, isso pode enfraquecer um dia como a tatuagem Chateau Marmont que quase não aparece no seu pulso esquerdo, mas neste momento seu poder está com o foco afiado.

O quinto álbum de estúdio de Lana Del Rey, Lust For Life, será lançado em breve.

Tradução por BryanGiovana Parisi, Thiago MunizThiago Goedert e Vinícius Dias. – Equipe Lana Del Lovers.
Entrevista original por Lotte Jeffs à ELLE UK.