Lana Del Lovers
Lana Del Rey e Talia Schlanger no programa de rádio 'World Cafe' em Filadélfia, Pensilvânia, no dia 21 de janeiro de 2018.

Lana Del Rey fala sobre The Weeknd, Stevie Nicks, Marcha das Mulheres e muito mais em entrevista ao ‘World Cafe’

Em entrevista concedida a radialista Talia Schlanger do programa World Cafe em 21 de janeiro, Lana Del Rey falou sobre The Weeknd, Stevie Nicks, Marcha das Mulheres e muito mais. Leia abaixo a tradução da entrevista:

Alguns anos atrás, levei minha irmã para ver Lana Del Rey apresentar-se na Endless Summer Tour. Tenho certeza de que não éramos as únicas irmãs na multidão. Esse show continua sendo uma das nossas lembranças de concertos favoritos e então fiquei ansiosa para contar a minha irmã que eu teria a chance de entrevistar Lana para o World Cafe. Ela escreveu de volta: “Espera, o que? Eu pensei que a Lana fosse um holograma.”

Brincadeiras à parte, creio que muitas pessoas compartilham essa impressão de uma alguma forma. Talvez seja porque há uma qualidade etérea na forma como Lana se apresenta e um glamour vintage em seu estilo que pode fazê-la parecer mais como uma bela e sobrenatural aparição do que uma pessoa real.

Lana Del Rey veio ao World Cafe no dia seguinte ao show em Filadélfia. Nós falamos sobre seu último álbum, Lust For Life, e suas colaborações com Stevie Nicks e The Weeknd. Nós também falamos sobre como sua perspectiva em suas letras antigas mudou, o que ela está disposta a compartilhar em sua música hoje e está obtendo conselhos sobre celebridades de Eddie Veder.

Quando você anunciou o novo álbum, você lançou um trailer para ele que é bonito e muito profundo. Você pode descrever o que vemos neste vídeo, onde você está?

Estive pensando sobre essa ideia de fazer um vídeo direto do meio do H do letreiro de Hollywood na Califórnia, então pedi ao meu diretor Clark Jackson para me ajudar a criar todo esse espaço para parecer com o H e, dentro dele, eu estava meio que olhando para todo o caos na cidade abaixo e além, querendo também que houvesse uma pitada de Filme B nele com a narrativa e o plano de fundo musical.

A faixa Lust For Life conta com a participação de The Weeknd, mas você tem alguns outros maravilhosos artistas no álbum: A$AP Rocky, Sean Ono Lennon, Playboi Carti. Quero falar sobre Stevie Nicks, que canta em Beautiful People Beautiful Problems. Existe uma grande interação entre suas duas vozes: você abre a música e quando ela entra, você pode ouvir algo a mais de maneiras diferentes. Eu sei que você está sempre envolvida no processo de mixagem de suas músicas, e então você tem suas mãos nos vocais crus dela. Como é isso?

Isso na verdade foi muito aterrorizador. Entrei em contato com ela mais de uma vez para falar sobre isso para checar se ela tinha certeza de que tinha gostado de sua parte, e ela estava tão acessível, estava feliz com tudo. Ela realmente gosta dessa música.

O engraçado é que eu queria que ela abrisse a música, porque, você sabe, é a Stevie, mas ela não quis. Ela queria ficar com o segundo verso e iniciá-lo. Ela era cheia de surpresas. Ela me deu um pequeno H dourado de diamantes pois ela sempre brincou sobre quando eu ficasse mais velha, eu viveria no H e ela no W do letreiro de Hollywood — transformá-lo em uma pequena casa com a estrutura de um A, algo parecido com um chalé. Eu fiquei como: “Sério? Vamos fazer isso!”

Quando você a conheceu no estúdio, o que estava passando por sua mente?

Bem, primeiro eu entrei em contato com ela pelo FaceTime e perguntei se ela queria fazer isso. Pensei que provavelmente eram meio a meio as chances dela dizer não, mas ela disse que já havia ouvido e definitivamente era um sim, mas que estava fazendo turnê — ela já havia feito algo como 100 e poucos shows e que não estava se sentindo bem, então ela queria ficar em Nova Iorque, pois eu gravo um dia sim, dia não e eles em dias diretos. Logo, Rick [Nowels] voou para o Electric Lady Studios e começou a gravá-la primeiro lá, e conversou comigo pelo Skype e então pegou um avião de volta no outro dia e Stevie terminou sua turnê na semana seguinte e apareceu, e eu acho que ela re-cantou quase tudo em nosso estúdio em Santa Mônica.

Eu lembro de muitas coisas diferentes sobre aquela sessão. Ela queria que eu entrasse e fizesse algo no final. Eu peguei o microfone e meio que passei mal por ela estar me observando. Eu disse: “Isso foi ruim, minha voz estava falhando.” E ela foi como: “Eu gosto que estava falhando. Eu vou tentar fazer isso como você agora.”

Como uma pessoa famosa, há muita energia flutuando ao seu redor; eu vi vídeos que você postou onde você está andando em um aeroporto e há flashes vindo de todos lugares. A música 13 Beaches parece capturar algo disso — conte-me um pouco sobre o que estimulou essa música.

Deus, chame isso de problemas de luxúria, mas é sobre passar por cada praia de Santa Mônica até chegar em Ventura — um total de 13 praias. Isso foi onde os paparazzi pararam. E então isto é sobre encontrar aquele lugar onde você pode apenas ficar em paz. Há muitas camadas nessa música para mim: Essa ideia de “pêssegos pingando” (dripping peaches, em inglês) meio que me lembrou uma pintura de Salvador Dalí, e eu tive que cantar isso para fazer sentido.

Minha intenção com essa música foi literalmente encontrar um lugar físico calmo para relaxar e apenas ser, sem ninguém me observando — especialmente em uma praia, quando estou em um maiô… [e] meio que fazendo o que quer que seja para encontrar esse lugar calmo, não importa o quão longe você tenha que dirigir. Minhas músicas realmente vêm a mim quando eu estou tipo, na natureza, e usualmente sozinha, pelo menos o começo delas. Então, para mim, isso foi meio que outro motivo para encontrar esse lugar onde eu posso ser criativa.

Há algo a ser dito sobre isso quando se vive o tipo de vida que você leva: eu li que você teve pessoas invadindo sua casa. Isso deve ser a coisa mais aterrorizante do mundo, e há muitas pessoas que levam uma carreira sem que isso aconteça.

Absolutamente. Na verdade, quando toquei para o Eddie Vedder em seu The Ohana Fest, ele veio até mim e estava tipo: “Como você está? Aposto que isso é muito louco para você.” E ele contou muitas histórias, me disse sobre algumas vezes que ele teve que se mudar.

Eu acho que conseguiria ver uma similaridade com Eddie Vedder onde pessoas realmente se sentem como se conhecessem você, ou como se você devesse algo a eles que é pessoal, e então se sentem no direito de estar em seu espaço.

A maneira que tenho visto isso nos últimos sete anos é, eu acho que as pessoas que estão interessadas estão MUITO interessadas, e eles adorariam estar em nossa casa. Não é como se eles pegassem algo — é como se eles adorariam apenas ver o que está na parede. Eu posso rir agora, o que é muito bom; levei um tempo para me acostumar, porque tem sido algo contínuo, mas eu realmente aceitei o fato de que estou em uma situação única.

Eu li um tuíte que você enviou por volta da época da Marcha das Mulheres de 2018, em janeiro — o aniversário de um ano da inauguração da Marcha das Mulheres em Washington — em que você disse que deixou sua irmã lá, mas não se sentiu como se pudesse ir porque seria uma distração para as mulheres que queriam estar lá. Eu acho que isso é incrivelmente decepcionante.

Isso foi na Marcha das Mulheres do ano passado. Fiquei um pouco desapontada comigo mesma por isso: deixei minha irmã e comecei, mas rapidamente virou uma distração com as meninas mais jovens marchando, tornou-se uma pequena bola de lã ao meu redor. Eu pensei, sabe, não é sobre mim, não é sobre uma pessoa famosa que está marchando hoje, então eu voltei para a nossa van e esperei lá. Mas, novamente, direi que às vezes é um pouco diferente quando estou por perto, sabe, a energia muda e que tendo dito isso, eu diria que há uma hora e lugar para tudo e não há motivo para o próximo ano eu não estar lá no meio e me sentir confortável. Mas só depende do momento, você não pode saber imediatamente se algo vai funcionar ou não. Nesse dia, não funcionou.

Um bom punhado de mulheres que fazem música sentaram-se aqui comigo no último ano, e tem sido interessante falar sobre o que isso tudo significa. Quando St. Vincent esteve aqui, nós conversamos sobre a roupa de látex que ela usa no palco, onde ela parece a Mulher Maravilha ou a Mulher-Gato. Ela disse que isto a faz sentir-se incrivelmente poderosa, e que “Isso é o que feminismo é, é conseguir decidir o que o poder significa para você.” Isso me lembrou de sua atitude, que é de certa forma ousada dizer o que você precisa dizer. Eu acho que isso é algo muito poderoso.

De certa forma, eu fiz o que tive que fazer em termos de narrar minhas próprias histórias. Você sabe, eu não estava feliz com parte de minha história até recentemente, então eu nem sempre gosto do jeito que eu estava colocando as coisas, mas era apenas a maneira que aconteceu, sabe? Eu não sei se isso é feminismo, mas é o que era. Uma das questões que tive nos últimos 10 anos foi que não havia muitas opções para ser uma super vocalista e poderosa sem ter muitas reações e repercussões. Era um ambiente muito dominado por homens em certos momentos. Esse é o porquê eu acho que todo esse movimento é tão importante — as pessoas que não entendem o movimento #MeToo são apenas… eu não os entendo. Eu não entendo essas pessoas. É como, você não entende o quanto é difícil às vezes apenas tipo, estar segura e ter sua própria voz como uma mulher?

O que eu realmente aprecio sobre o movimento em geral agora é que muitos dos comportamentos ou coisas que são normalizadas, as mulheres estão percebendo que não são normais.

Eu concordo totalmente com isso.

Gostaria de te perguntar sobre a música Ultraviolence, de 2014, e o verso “Ele me bateu e eu senti como um beijo” [uma referência à música de mesmo nome do grupo The Crystals], que em 2014 poderia realmente ter sentido uma coisa diferente para cantar do que é agora. Esta canção não apareceu em muitas setlists de suas apresentações recentes, mas estamos gravando essa entrevista no dia seguinte ao seu show em Filadélfia, onde você a apresentou. O que fez você querer cantá-la na noite passada?

Eu costumo trazê-la de volta a cada três shows. Essa é a parte do meu show onde a alterno com uma das cinco músicas. Geralmente é sobre se eu posso alcançar algumas das notas ou se eu quero cantar o verso em específico. Às vezes não quero.

Como se sente ao cantá-la ou escutar cantada de volta para você? Soa diferente do que costumava?

Sim. Agora não gosto de cantá-la.

O que aprecio sobre isso é que é como um artefato de algo que pode ter feito sentido em algum tempo. Isso leva você de volta a algo em sua própria memória ou você viu isso representado em algum lugar?

Acho que diria que eu não tinha uma grande referência para o que realmente seria um relacionamento saudável, e eu de certa forma percebi que teria que começar comigo apenas imaginando o que isso seria, e então encontrando outras pessoas que tiveram um relacionamento assim. Então eu tive que crescer muito para isso não me parecer uma música confortável de cantar, mas felizmente fiz isso.

Há uma diferença enorme entre tolerar algo e refletir algo, que é o motivo pelo qual acho que foi importante falar sobre Ultraviolence.

Eu concordo. Tive uma entrevista realmente difícil com a revista The Fader onde esse cara estava me martelando com perguntas sobre o feminismo, sobre a palavra, e eu sabia que ele queria que eu dissesse que não sou uma feminista — ele estava apenas direcionando a isso. E o que eu quis dizer [é], isso é apenas minha experiência em minhas relações até agora… Isso não é sobre toda a minha história. Eu quero dizer, isso é o porquê tenho polarizando, porque pessoas não querem olhar o quadro completo, querem apenas se ater aos fatos. Mas isso tem sido uma boa lição para mim, porque acho que quando eu era mais jovem pensava: “Eu não vou editar minha própria música. Isso é apenas o que saiu.” E agora sou tipo: “O que diabos estou fazendo? Eu não vou dizer isso.”

Gostaria de terminar essa entrevista falando sobre a canção que encerra o álbum: Get Free. Você canta: “Este é o meu compromisso / Meu manifesto moderno / Estou fazendo isso para todos nós / Àqueles que nunca tiveram a chance.” Nunca tiveram a chance de quê?

Para Amy [Winehouse] e para Whitney [Houston]. “E todos os meus pássaros do paraíso / Que nunca chegaram a voar à noite / Porque eles foram apanhados na dança.” É sobre pessoas que não conseguem alcançar seu potencial total porque deixaram pessoas controladoras impedirem que elas fossem livres.

Então, também há um verso que é muito evocativo: “Eu quero sair do preto, e entrar no azul”. Estou me perguntando o que é o preto e o que é o azul?

Bem, na minha cabeça, o preto eram pensamentos negativos e o azul era um pouco de abrigo na natureza. Então, visualmente, eu estava pensando no oceano, mas também na conotação das palavras. Azul, para mim, eu penso no céu, algo como um novo horizonte, algo mais fresco.

Qual a chave para se libertar?

Eu acho que ir mais fundo, sabendo que você está na sua própria porta de entrada para as respostas e não estar procurando elas em outras pessoas. Tirar o tempo para se autoconhecer.

Tradução por Bárbara Tayná, Clara Gurgel, Maria Rocha e Thiago Goedert.– Equipe Lana Del Lovers.
Entrevista original por Talia Schlanger ao World Cafe.