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The New York Times | Lana Del Rey ainda agita as coisas com ‘Ultraviolence’

Em entrevista ao renomado jornal norte-americano The New York Times, Lana Del Rey falou sobre suas inspirações, feminismo, como foi trabalhar com Dan Auerbach, novo álbum e muito mais. Leia abaixo a tradução da matéria:

Encontrando seu futuro olhando para o passado.
Lana Del Rey ainda agita as coisas com Ultraviolence.

LOS ANGELES – Em outubro, antes de iniciar sua turnê internacional, a compositora Lana Del Rey consultou um vidente. Ela foi instruída a anotar quatro perguntas com antecedência e pensar sobre elas. A primeira pergunta da lista, a Sra. Del Rey disse em uma entrevista no mês de maio, na casa dela aqui em Los Angeles, e foi: “Eu sou feita para este mundo?”

Provavelmente esse não é o tipo de pergunta que cantoras famosas perguntam a si mesmo, cujo suas carreiras claramente se mostram ascendente. Este ano, a Sra. Del Rey foi chamada para cantar um remake assustador de Once Upon A Dream para o filme da Maleficent, e ela também cantou em Versailles, para a festa de pré-casamento de Kanye West e Kim Kardashian.

Mas a suspeita, pesares, desejos obsessivos e impulsos autodestrutivos são muitas vezes o cerne das músicas e vídeos da Sra. Del Rey. “Eu espero por você, baby, isso é tudo que eu faço / não venha, baby, você nunca vem”, ela canta em Pretty When You Cry em seu novo álbum, Ultraviolence (Polydor/Interscope), que deve ser lançado terça-feira.

Desde o seu surgimento em uma grande gravadora com o single Video Games em 2011 e do álbum Born To Die em 2012, a Sra. Del Rey tem atraído respostas opostas. Suas músicas e videoclipes recatadamente entram em campos minados culturais, explorando o erotismo, a mortalidade, poder, submissão, glamour, fé, cultura pop iconográfica e o(s) significado(s) do(s) sonho(s) americano. Ela enfrentou, em comentários e discussões on-line, acusações de inautenticidade, amadorismo, anti-feminismo e cálculo comercial (embora ela só conseguiu chegar no Top 10 de singles nos Estados sem ter planejado: com o remix feito pelo francês Cedric Gervais de sua melancólica faixa Summertime Sadness). Mas ela também conquistou – principalmente pelo YouTube – um grande público mundial que adora, e leva todas as suas letras para o coração.

Ultraviolence, sem dúvida, vai provocar mais conflitos. Mas uma coisa que o álbum deve eliminar de imediato é a noção de que a Sra. Del Rey só está procurando por “hits”. O álbum atinge mais profundamente no seu senso de movimento lento do tempo, sua mistura de sofisticação retrô e sinceridade aparentemente inocente. Ele também se move graciosamente entre mágoa e humor manhoso, às vezes dentro da mesma canção.

Enquanto as playlists das rádios estão cheias de batidas futurísticas, de dança eletrônica e depoimentos de auto-estima, a Sra. Del Rey, 28, tomou um caminho contrário, melódico e melancólico. Muitas de suas músicas tem sido exuberantes, invocando ecos dos anos 1950 e 1960, e dezenas de filmes antigos em seus videoclipes; ela abre espaços tranquilos. Sua voz soa humana e subterrânea, oferecendo doçura e dor, mesmo quando ela canta palavras de quatro letras – love (amor).

As faixas do Born To Die baseam-se em hip-hop, com amostras de gemidos e batidas pesadas, mas agora, ela disse: “Eu não sou louca por produções.” A influência do hip-hop já estava recuando no Paradise, o EP lançado em 2012. E Ultraviolence é mais voluptuoso do que nunca.

Em um retrocesso a uma época menos informatizada, muitas das faixas do Ultraviolence foram feitas em torno da Sra. Del Rey com uma banda constituída por sete peças juntas que se correspondiam. As músicas muitas vezes flutuam em uma névoa psicodélica que ela descreveu como “narco-swing”. Dan Auerbach, guitarrista e vocalista da The Black Keys, produziu o álbum, e disse: “Ela estava nos observando e balançando enquanto tocávamos.”

Auerbach foi atraído para suas canções, porque, segundo ele, “Eles sentiram o velho e o novo ao mesmo tempo.” Sra. Del Rey cita livremente suas inspirações, incluindo Frank Sinatra, Bob Dylan, Cat Power, Nirvana e Eminem, mas nenhum deles surgiram neste século. “Penso no que está acontecendo agora”, ela disse. “De onde vou tirar minhas inspirações? Eu não poderia imaginar algo nos dias de hoje que eu genuinamente gostaria de fazer parte.”

Durante a conversa, Sra. Del Rey não é a cantora de voz baixa como nas músicas Video Games ou Blue Jeans; Sua voz é juvenil, pontuada com risos. Usando um mini vestido azul, e sandálias claras que revelaram unhas pintadas de pêssego perolado, ela se sentou em seu sofá, tomando café e fumando um maço de cigarros, sob uma pintura de anjos angelicais. Ela exibiu uma tatuagem recente no braço direito: “Whitman Nabokov”, dois autores que ela já citou em suas canções. Ela acabou de retornar à Los Angeles para terminar sua turnê norte-americana, com show no Shrine Expo Hall.

Depois de viver em Londres e fazer sua última turnê pelo mundo, Del Rey comprou sua casa aqui em Los Angeles, uma residência com estilo Inglês, há sete meses. As paredes estão recém pintadas com os tons azul e verde que estavam também em Video Games, o videoclipe caseiro – que ela mesmo editou  em seu notebook – que catapultou sua carreira e já foi visto mais de 119 milhões de vezes no YouTube. As pinturas em sua sala de estar são de ícones – a Virgem Maria, Elizabeth Taylor – e um livro sobre a mesa do café tem Marilyn Monroe na capa.

“Eu tenho um forte relacionamento com ícones”, diz ela. “Eles são provavelmente meus relacionamentos mais significativos. Sentem-se pessoal para mim, mas talvez isso é o que é ser um ícone. Talvez todo mundo se sente como se eles tivessem aquela mesma relação especial, que é diferente com todas as outras pessoas, como você os ama e pensa que eles te entendem mais do que ninguém, ou você os aceita da maneira como eles realmente são.”

Não é uma posição que ela aspira para si mesma. “Eu realmente não sei como me moldar como um ícone”, disse ela com sinceridade.

Muitas das acusações, que foram feitas contra a sua estréia com uma grande gravadora, foram imprecisas. Ela não era um rosto bonito servindo o conceito de alguém, ou de entusiasta. Como Lizzy Grant – nascida Elizabeth Grant Woolridge – ela havia trabalhado em ser uma compositora desde a adolescência. Tocando em pequenos clubes como em Lower East Side e Williamsburg. Ela cresceu em Lake Placid e foi para a capital, em busca do sonho de encontrar uma comunidade de escritores, mas nunca achou.

Em 2007, ela conseguiu seu primeiro contrato com uma gravadora, quando ela estava na faculdade Fordham, estudando metafísica. Ela gravou um EP de estreia em 2008, e rapidamente lançou um álbum em 2010 — Lana Del Ray A.K.A. Lizzy Grant. As músicas desse álbum já exploravam a inocência manchada e compulsões perigosas que ela traria para Born To Die. A produção poderia mudar com seus colaboradores, mas sua perspectiva nunca se alterou.

Como muitos compositores fazem, ela trabalha com músicos mais treinados que fornecem bases para suas melodias e letras. Às vezes eles tocam qualquer coisa, enquanto ela improvisa; às vezes ela traz letras e melodias finalizadas para eles harmonizarem. “Ela é muita clara sobre o que quer e não quer”, disse Rick Nowels, que escreveu Young And Beautiful e West Coast com ela, e que colaborou com Madonna e Dido. “Ela é a capitã do seu próprio navio.”

Del Rey descreve suas músicas de uma maneira simples. “Eu quero uma de duas coisas. Ou quero contar exatamente como era, ou quero imaginar o futuro do jeito que eu espero que ele se tornará. Ou eu estou documentando alguma coisa ou eu estou sonhando.”

Em Ultraviolence, isso significa músicas como Cruel World, em que ela rompe com relações que falharam — “Dividi minha cabeça e meu corpo com você/E está tudo acabado agora” — e Sad Girl; ela também canta The Other Woman, um cover de Nina Simone.

Já preparada para desaprovação, ela disse: “Se você realmente quer me analisar, se isso é algo que você está interessado, deixe-me contar a minha história e só depois disso diga suas palavras.”

A gravação de Pretty When You Cry é construída em torno da sessão de escrita original: acordes do guitarrista de sua banda, Blake Stranathan, um tempo flutuante e palavras que ela estava formando em cima da hora. “Eu sou mais forte que todos os meus homens”, ela canta, “exceto você.” Uma abordagem mais convencional seria refazer seu instável vocal arranhado com algo mais bonito. “Eu nem se quer penso em voltar atrás para corrigir isto”, ela disse, “porque se você conhece a história por trás disso, então você pode dizer por que foi cantado dessa maneira.”

As respostas raivosas ao Born To Die deixaram cicatrizes. “Carl Jung disse que o que as pessoas pensam de você sempre acaba se tornando uma parte de sua psique. Quer você goste ou não”, disse ela. Seu novo álbum inclui uma réplica: Money Power Glory, que afirma, com sarcasmo profundo, que ela está atrás disso.

“Eu aprendi que tudo o que eu fiz induziu uma resposta oposta, então eu tenho certeza que Money Power Glory vai realmente entrar em ressonância com as pessoas sendo isso o que eu realmente quero”, ela disse com um encolher de ombros. “Eu já sei o que vai acontecer, por isso é fácil explorar a ironia e amargura.”

Uma crítica recorrente era que suas canções sobre ser levada pelo amor eram anti-feministas em sua passividade; ela afirma que estava escrevendo sobre sentimentos particulares e imediatos, sem estabelecer nenhuma doutrina. “Para mim, uma verdadeira feminista é alguém que é uma mulher que faz exatamente o que quer”, disse ela. “Se a minha escolha é, eu não sei, ficar com um monte de homens, e se eu gosto de um relacionamento físico, eu não acho que isso é necessariamente ser anti-feminista. Para mim, o argumento do feminismo nunca deveria ter entrado em discussão. Porque eu não sei muito sobre a história do feminismo, e por isso eu não sou realmente uma pessoa relevante para falar sobre isso. Tudo o que eu estava escrevendo era tão autobiográfico, poderia realmente ser apenas uma análise pessoal.”

Ela também foi criticada por fazer videoclipes que culminam na sua morte: por afogamento, por queda, por asfixia. O vídeo de Born To Die termina com ela nos braços de um namorado, inerte e coberta de sangue. Ela concorda que seus vídeos muitas vezes “exploram maneiras de morrer”, disse ela, acrescentando: “Eu amo a ideia de que tudo isso vai acabar. É apenas um alívio, na verdade. Estou com medo de morrer, mas eu quero morrer.” A faixa-título Ultraviolence se aventura em um território precário. Em um arranjo que mescla música barroca e guitarra wah-wah, a cantora se descreve como “cheia de veneno, mas abençoada com a beleza e raiva“, e chega a citar um trecho da canção do grupo The Crystals, He Hit Me (And It Felt Like a Kiss).

As letras também mencionam um “líder de seita”, e a senhorita Del Rey disse que a música era sobre uma época logo depois que se mudou para Nova Iorque, quando considerou seguir um guru que “acreditava que tinha que quebrar as pessoas primeiro para depois poder reconstruí-las.” “Parece um pouco estranho”, ela adiciona, “mas é disso que se trata, e ter sentimentos românticos entrelaçados com a ideia de ser liderado, deixar ir e se render. Isso é sempre um conceito para mim, como se eu estivesse oscilando entre independência e cair em estilos de vida e ser levada.”

Há um padrão subjacente às canções do Ultraviolence; a voz de Del Rey aparece sozinha e muitas vezes frágil nos versos, em seguida, é cercada de instrumentos e de vários backing vocals. “Cada música representa integralmente os fluxos e refluxos, os períodos de normalidade misturados com este caos descontrolado que vem através das circunstâncias da minha vida”, disse ela. “É a sua história. Se você é o único a escrevê-la, você quer contá-la direito.”

Na noite seguinte, Del Rey estava no Shrine Expo Hall se apresentando para uma arena lotada. Havia gritos agudos enquanto ela passeava pelo palco, e da frente para a parte de trás do palco, vozes se levantavam pra cantarem junto. Não foi como um de seus outros shows, uma ocasião especial; o público foi devocional, compartilhando cada palavra, às vezes perto de a abafar. No palco, Del Rey apenas ficou lá e cantou, balançando de vez em quando; e quando fez algo mais planejado na coreografia, apenas uma descida de quadril durante Body Electric, toda a sala rugiu.

“A energia é muito maior na barreira onde divide o palco do público do que no palco em si”, ela acrescenta depois. Ela passeou duas vezes, descendo para fotos, seguida por uma câmeras de vídeo, quando os fãs a alcançaram com presentes e abraços. “Eu perdi um monte de cabelo nesta turnê”, ela disse mais tarde, nos bastidores. “O público tem sido um bem inesperado de conforto que eu tenho mergulhado recentemente. Nunca foi algo que eu tenha, ao menos, pensado em procurar para força ou afirmação.”

Porém, a adoração não quebrou a solidão de suas canções. “Sim, eu estou em um lugar diferente hoje do que estava há quatro anos, mas eu ainda estou de certa forma no mesmo lugar. Eu ainda estou na periferia.”

 

Tradução por Gabriela Mendes, Igor Fortunato e Thiago Goedert. – Equipe Lana Del Lovers
Entrevista original por The New York Times.