Lana Del Lovers

Prefix | Q&A: Lana Del Rey

NÓS CONVERSAMOS COM LANA DEL REY SOBRE A FÉ, BON IVER, E O CONTROLE QUE TEM DENTRO DO SEU TRABALHO.

Lana Del Rey não vai ser o seu modelo a seguir; ela não quer. A cantora de 24 anos, que primeiro tentou uma carreira sob o seu nome, Lizzy Grant, foge de interagir diretamente com o público, que é uma das razões da qual ela recebeu tanta atenção desde o seu single de estreia, Video Games.

Depois de capturar os corações dos meninos indies e blogueiros independentes, a restrita vida de Lana Del Rey como Lizzy Grant se tornou um “segredo” revelado, tirado do armário, que ela não pareceu assumir a responsabilidade. Para sua vantagem, conversas sobre sua autenticidade e onde sua música pertencia fizeram mais barulho do que suas canções, Video Games e Blue Jeans.

Tão arisca como ela era quando falamos ao telefone, Lana Del Rey é, pelo menos, consistente. E sedutora, considerando seu punhado de singles que têm sustentado seus fãs e críticos, enquanto seu disco de estreia ainda está a meses de distância. Não menos de olhos arregalados do que quando ela começou como um pequeno riacho em Williamsburg, Lana Del Rey/Lizzy Grant parecem despertar a mesma pergunta: Quanto controle as artistas do sexo feminino devem ter em seu trabalho?

Nós colocamos essa questão a ela e trouxemos para fora seus pensamentos sobre fé, suicídio e Bon Iver.

Você já cantou em corais de igreja e usa uma cruz em fotos promocionais. A sua fé é algo que você quer que as pessoas associem com a sua música?

Eu não acho que a minha fé seja algo que eu planejava para que pessoas associassem com a minha música. Apesar de eu ter cantado em coros de igreja quando eu era criança, era mais porque era uma cidade pequena e era o que você fazia. A fé que eu tenho agora não vem da religião organizada. Essa é uma resposta tão hippie. Mas ela vem através de minhas próprias experiências de vida, rezando em meu caminho através de tempos difíceis. É o meu entendimento de um poder universal. Eu não tenho certeza do quanto virá da igreja. Eu uso uma cruz, mas é porque eu gosto da imagem dela. Eu acho que todos esses pontos juntos podem culminar em uma espécie do você poderá pensar que eu seria, mas eles são tipo, apenas coincidências.

Quando você ora?

Espero que as pessoas não pensem que sou algum tipo de evangélica. Não é assim. Eu rezo quando sinto que preciso de ajuda, se eu estou com problemas. Ontem à noite [eu orei]. Eu acho que quando você passa por um monte de situações e você meio que fica sem recursos, e você está deitado na cama à noite, você realmente não sabe o que fazer, a sua última alternativa é rezar para quem está lá.

O que inspirou você a orar na noite passada?

Eu estava nervosa sobre a maneira como as coisas estão indo. Eu não quero nada grande me aconteça; Eu só quero manter a paz que eu tenho tido durante os últimos cinco anos da minha vida.

Paz com a sua carreira, ou a paz mental?

Definitivamente paz mental. Eu não tinha paz com a forma como as coisas estavam indo no começo, mas eu me estabeleci. Eu queria uma carreira onde eu poderia fazer a música que eu queria e tipo uma turnê, se eu quisesse, mas isso é na verdade uma enorme ambição! Eu não fazia ideia. Eu pensei que se você fosse um bom cantor, isso estaria a seu alcance. Mas há tantos bons cantores lá fora e é difícil: é preciso dinheiro para uma turnê, e é preciso dinheiro para fazer discos — especialmente se você quiser fazer do jeito que você quer fazer.

Eu fiquei em paz com a maneira que as coisas estavam indo, que era tipo cantar em Nova Iorque e ter meus amigos e minha própria pequena base de fãs. Eu tive a paz mental, porque eu me senti como se eu estivesse fazendo a coisa certa com a minha vida e sendo uma boa pessoa, e isso me dá paz mental.

Você disse que queria fazer música em seu próprio caminho. Você vai manter o controle total sobre o seu disco?

Parece que isso é possível. Quatro semanas atrás, eu assinei com duas grandes gravadoras, mas, pelo que eu entendo, a razão que eles me contrataram foi porque o que eu estava fazendo estava funcionando. Então, nas últimas quatro semanas todos foram muito úteis em me deixaram fazer o que quisesse.

Estou cansada de fazer meus próprios vídeos, eu não quero mais fazer isso. Então, eu conheci esse diretor de cinema francês [Woodkid] que eu realmente amo e que queria trabalhar comigo e com a gravadora, que apoiou totalmente e que acharam que ele era a escolha certa. Ele parece ser a extensão melhorada do que eu estava tentando fazer sozinha. E eu queria continuar a trabalhar com o meu melhor amigo que é um compositor de cinema em Hollywood — não na música pop, mas de trailers de filmes e assim — e eles o adoram também. Acho que fazer o disco vai ser a parte mais fácil, na verdade. E a outras coisas que vem com ele, que é o que eu não estou a certa.

Eu sinto que é um passo na direção certa: ainda estar trabalhando com pessoas que tem integridade, mas eles são apenas muito melhores nas merdas que eu.

Parece que o personagem em Blue Jeans carece de controle. Qual é a sua relação com esse personagem?

Quanto mais eu faço entrevistas, mais eu estou entendendo que essa é a impressão que as pessoas estão ficando, com a combinação de Video games e Blue Jeans juntas. Mas eu acho que o que eu estava tentando fazer com que a canção era mais uma homenagem ao amor verdadeiro. O fato é que eu não deixo que os homens governem minha vida. Eu meio que aprendi da maneira mais difícil de viver por meus próprios valores e fazer as coisas por mim mesma, mas nessa música em particular eu encontrei alguém que eu amava muito, mas no final não poderia estar com ela. É a mesma premissa no terceiro single para janeiro, que é apenas honrar o amor verdadeiro, mesmo que o destino separe vocês e não saltar para outro relacionamento, mesmo que o seu antigo amor tenha que acabar. Para mim, era mais sobre o tributo a uma pessoa que visualmente me afetou em primeiro lugar e, em seguida, se tornou também uma real ligação de alma. E foi assim, independentemente da forma como as coisas andam, em meu coração, eu sei que eu vou ser fiel a essa pessoa. Eu sei que as pessoas pensam que é um tipo de coisa masoquista, mas de uma maneira que eu estava tentando ser saudável sobre isso, porque eu senti que iria ficar com ele, mesmo que ele não estivesse lá, e talvez algumas pessoas não concordam com isso. Mas eu acho que se você é o tipo de pessoa que é especial no amor, é assim que você faz.

Eu não acho que o poder é uma coisa estável em relacionamentos. Muitas vezes ele muda de mãos, e as pessoas podem olhar para um relacionamento em um momento, ver um lado ruim, e acabar com isso. Mas o quão importante você acha que é as mulheres terem controle nas canções que elas próprias cantam?

Essa é uma boa pergunta e eu não tenho muita certeza. Eu acho que é importante ter controle dentro de sua própria vida, muito importante, porque caso contrário, você vai entrar em problemas. Mas artisticamente eu explorei diferentes rotas. Acho que o que todos nós aprendemos é que você tem que ser responsável por você mesmo e inspirado pela música, mas talvez não se guiar no que toca a direção e orientação. Normalmente, não é uma boa fonte para aprender a viver a vida. Todo mundo acaba se matando.

Houve momentos em que você olhou para uma canção como orientação, mesmo quando você estava tentando passar o rompimento com quem quer que fosse?

Eu tenho procurado conforto em melodias que me inspiraram, ou me lembram a beleza das coisas, e talvez tenha visto inspiração nas coisas, mas em termos de orientação, não, eu não procuro por orientação na música. Eu procuro particularmente nos modelos a seguir — eu acho que é uma ideia muito melhor. Se eu quisesse uma vida como a de outra pessoa, eu provavelmente iria estudar a sua vida. Eu sei que a música é poderosa, mas não é o meu maior poder.

Você gostaria que as meninas olhassem para Lana Del Rey como um modelo a seguir?

Eu não sei. O que você acha?

Eu acho que uma das coisas mais inspiradoras sobre Lana Del Rey é que ela não tenta mascarar sua feminilidade em tudo, que é algo que eu acho que um monte de cantores indie fazem.

Eu acho que isso é verdade. Eu certamente aproveito a minha feminilidade, mas eu não me aproveito dela na minha vida cotidiana. Eu também não planejo usar isso como um veículo para chegar mais além na música, porque eu tenho cantado por um bom tempo e se as pessoas não estão interessadas, elas não estão interessadas. Minha imagem não vai mudar isso, eu sei, por experiência própria.

As fotos que eu vi de sua carreira como Lizzy Grant parecem muito menos sexualizadas do que as fotos promocionais de Lana Del Rey.

Talvez, mas há apenas algumas, e elas foram feitas por minha irmã. É difícil saber o que acontece dentro, olhando de fora. Eu não diria sexualizada, porque descobri que o sexo não é um poder duradouro. Acho que eu diria mais que foi algo bonito, a minha própria versão do que eu achei esteticamente agradável.

O que você acha da ideia de feminilidade é dentro da comunidade indie?

É difícil para mim, definir o que a comunidade indie é. Como, Bon Iver é considerado indie, mas todo mundo sabe quem ele é, então ele não é mais indie.

Há diferentes níveis da comunidade indie. Há a comunidade indie real, as pessoas super underground que ninguém sabe nada sobre elas – isso sim, é a real comunidade indie. E depois há pessoas que meio que explodiram e há um monte de informações sobre elas e elas fazem turnês e isso é como a comunidade indie nível A. Estou tentando pensar em quais meninas estarão nessa comunidade, mas eu realmente não sei.

Eu meio que sinto como se tivesse funcionando como um agente solo por um bom tempo. Eu queria ser uma parte da comunidade indie, mas eu não estava realmente na comunidade indie, porque eu não tenho uma comunidade. Eu não sei sobre essa matéria. E só recentemente chegou ao meu conhecimento que as pessoas estão tentando decidir onde esse gênero caberia.

Parece que você tem uma comunidade agora.

Sim, parece que tenho sim. Eu não tenho certeza de quem são. Tudo o que sei é que há três meses não estava acontecendo nada. Eu estive conversando com um monte de pessoas nos últimos meses e algo mudou. Acho que as pessoas gostam dessa música e talvez Blue Jeans também. Eu acho que eu estou encontrando onde eu pertenço, mas isso não importa, porque, de qualquer maneira, eu estou aqui só para fazer minhas próprias coisas, e parece que meus empresários e minha gravadora estão bem com isso. Eu não tenho certeza para onde isso está caminhando.

Você sente pressão ao ser olhada de uma determinada maneira na comunidade em que você está agora?

Não dentro desta comunidade ou dentro do negócio do entretenimento. Eu tenho minhas próprias visões de beleza para mulher ou homem. Eu tenho meu próprio gosto e preferências. Mas, eu me sinto pressionada? Às vezes. Embora esteja muito feliz. Minhas fotos na imprensa são uma espécie de polimento ou algo assim, mas, eu não sei, eu me preocupava com minha história — quero dizer, não por alguém em particular, mas só porque eu queria, para meu próprio bem.

Você disse que você não tenta criar uma persona. Qual a importância que você acha que tem a persona dentro da música?

Eu acho que é importante para algumas pessoas. Eu acho que foi importante para mim há muito tempo atrás, quando eu tinha uns 16 anos e eu queria me divertir com ela, mas nada é tão importante para mim agora. Eu quero fazer as minhas coisas. Eu canto e eu gosto de fazer discos, isso é o que eu penso. Eu quero fazer meus discos e é isso.

Tradução por Carolina Araújo. – Equipe Lana Del Lovers
Entrevista original por Prefix.