Lana Del Lovers
Lana Del Rey

The Telegraph | Novo álbum ‘Born To Die’ é ‘uma coisa bela’

Como a controversa Lana Del Rey se prepara para lançar um novo álbum de voluptuoso e agridoce pop, ela revela o que é ser tão repentinamente festejada e difamada.

Lana Del Rey é a garota do momento. Em uma tarde gelada de Nova Iorque, ela cruza o lobby de um clube dos sócios exclusivos, com a aura intocável de alguém transportado para dentro de seu próprio micro-clima. Ela parece impecável, como de fato ela sempre pareceu desde que o mundo se sentou pela primeira vez e tomou conhecimento dela — perfeitamente produzida com calças azuis apertadas, camisa verde e um casaco de camurça, como uma princesa beatnik. Longos cabelos ruivos caem em linhas perfeitas ao redor do rosto, olhos castanhos profundos se fundem, num olhar sincero e firme sob os longos cílios postiços.

Em carne e osso, ela ainda tem uma leveza de pintura feminina, mas na frente das câmeras ela é capaz de mudar rapidamente de um tipo de inocência estranha a conscientemente sedutora. É uma qualidade que é difícil de definir, mas está presente nos vídeos, músicas e sessões de fotos que repentina e dramaticamente a elevaram das margens obscuras da Internet para o centro do mundo pop, uma espécie de duplicidade, uma sensação de dualidade e as contradições que imergem. Ela é uma pessoa em quem você pode ler muito.

Que é o que o mundo tem vindo a fazer. Em maio de 2010, a sem representante Del Rey postou um vídeo caseiro no YouTube de uma música extremamente simples intitulada Video Games, na qual ela cantou numa voz baixa e sensual sobre um momento passado de negligente e, possivelmente idílico amor, numa melodia dolorosamente triste, num conjunto de vídeos da antiga Hollywood e imagens desfocadas de Del Rey. É um clipe que tem um estranho poder sobrenatural, enfatizado, talvez, pela ausência de batimentos, a postura tranquila de sua construção artística, aliada à intensa, mas discreta emoção.

Até o final do ano, havia sido visto 20 milhões de vezes, tornando-se um hit de top 10 na gravadora indie britânica, Strange Music, que lhe rendeu um grande contrato com a Universal Music, que a colocou nas capas de revistas e no topo das pesquisas, e ajudaram a tornar Del Rey a mais nova e falada estrela do ano, saudada, em sua própria frase concisa, como a “versão gangster da Nancy Sinatra”. No entanto, muito do que tem sido falado não tem sido particularmente agradável. Ela foi acusada online de ser falsa, criada pelos bastidores de Svengalis num tipo de conspiração nefasta pop, uma botoxed, fabricada, mimada, uma boba super rica sendo vendida a um mundo crédulo, como uma pin-up indie. Insultos voaram velozmente, como comentadores que puseram sua autenticidade em cheque. Era como se Del Rey fosse boa demais para ser verdade.

“É engraçado”, diz Del Rey, embora ela não estivesse rindo. “Eu não tenho nenhum artifício. Eu não faço nada que seja estranho. Eu nem visto coisas estranhas. Tenho apresentado minha música a gravadoras por anos, e todo mundo achou que era assustador. Eles pensaram que, as imagens juntamente com a música, ficava estranho e beirando o psicótico. E então, um dia, parece que as pessoas decidiram que não era assim tão estranha, que na verdade era demasiado perfeito. O fato de que até mesmo seja considerado pop é uma revelação para mim. Você sabe o que mudou? Foi ter sido tocado na rádio.”

Por trás de uma equilibrada expressão impassível, Del Rey muda sutilmente entre um provocatório desdém e uma ansiedade vulnerável. Estas são qualidades que você pode ouvir em sua música. Mas a surpresa é que, por baixo da imagem artisticamente composta que ela apresentou ao mundo, sua sensibilidade está à flor da pele. Pois dá para notar que não há nada de irônico ou de conceitual sobre Del Rey. “Estou sendo 100 por cento sincera”, ela afirma.

Em 30 de janeiro, Del Rey vai lançar um álbum, Born To Die, que deve estabelecê-la não como apenas uma grande estrela, mas como um talento real. É uma coleção libertadora, emocionalmente muito bem trabalhada, canções energicamente memoráveis sobre bons e maus momentos de amor, bebida na adolescência, angústia existencial, memórias, perda e vingança. Tem letras sinuosas e inteligentes definidas por sonoros devaneios, melodias exuberantes e batidas trip hop. “Acho que é bonito. Penso que é lindo. Este álbum é o meu eu em forma de música. Então, se soar como tudo se encaixasse perfeitamente, é porque encaixa. Não há nada alterado, nada harmonizado, é perfeitamente eu. Para melhor ou pior, é como se fosse uma pessoa na forma de música e de vídeo.”

Na parte central do álbum há uma espécie de dicotomia — a qualidade de ser triste, sem ser infeliz, que se reflete na música título. “Há uma sensação de perda de coisas subjacentes. Eu costumava me perguntar se era plano de Deus que eu devesse ficar sozinha por tanto tempo da minha vida. Mas eu encontrei a paz. Eu encontrei a felicidade dentro das pessoas e do mundo. Portanto, há um tom triste, mas também alegria real. Parecia uma mistura de dois mundos maravilhosos que se complementam.”

Então, será que realmente acha que nós nascemos para morrer?

“Não, eu acho que nós nascemos para viver.”

Dado o nome de Del Rey é Elizabeth Grant. Ela nasceu há 25 anos, e cresceu na pequena cidade de Lake Placid na zona rural do Estado de Nova Iorque. Seu pai é um investidor imobiliário, a mãe é uma executiva de contas de uma empresa de publicidade e, enquanto eles estão confortavelmente na classe média, ela bufa que, contrariamente à especulação da Internet, eles não são milionários. Não havia dinheiro nenhum. Era apenas uma vida.” Apesar do cenário, parece que, a vida intíma de Del Rey, pelo menos, não foi nada tranquila. “Quando eu era muito jovem, eu fiquei chocada pelo fato de que minha mãe, meu pai, e todos que eu conhecia iam morrer um dia, inclusive eu. Eu tive uma espécie de crise filosófica. Eu não podia acreditar que éramos mortais. Por alguma razão esse conhecimento meio que marcou minha experiência. Eu fiquei infeliz por algum tempo. Me meti em um monte de problemas. Eu costumava beber muito. Esse foi um momento difícil na minha vida.”

Ela muitas vezes faz alusão a beber na adolescência, e diz que ela não toca numa gota há oito anos. Pressionada sobre o quão ruim foi, ela responde: “Tão ruim que eu tive que parar.” Quando ela tinha 15 anos, ela foi mandada para um internato em Connecticut, um evento que ela fala na faixa de encerramento do álbum, This Is What Makes Us Girls, relembrando sua gangue colegial, “uma geração caloura de rainhas da beleza corrompidas”, e no momento ela se viu em uma plataforma de trem, acenando-lhes adeus, e “chorando porque eu sei que eu nunca mais vou voltar.”

Aos 18 anos, ela se mudou para Nova Iorque, estudou metafísica na faculdade e aprendeu a tocar violão sozinha. “Eu sempre escrevi. É a única coisa em que eu sempre fui boa. Não é difícil, como a matemática. Eu não sou ruim nisso, como eu sou com tudo o resto. Mas não tem que ser música. Eu gosto de cantar. Eu também gosto de edição, juntar pedaços de vídeos. E assim eu tenho feito todas estas coisas, mas a minha única ambição era ser uma grande escritora.” Seu assunto foi sua vida, especialmente um relacionamento que deu errado, e que a inspira músicas como Off To The Races (“Eu sou sua pequena meretriz, vedete, rainha de Coney Island”), Blue Jeans (“Você me serve melhor do que a minha camisola favorita”) e National Anthem (“Nós estamos em um rápido, doentio alvoroço/comer e beber, beber e dirigir/As nossas drogas e nosso amor e nossos sonhos e nossa raiva/borram as linhas entre o real e o falso”).

“Não é culpa minha que o amor tenha sido ruim. Eu conheci essa pessoa, com quem eu ia passar o resto da minha vida. Nós dois estávamos limpos e sóbrios. Vivemos juntos e então ele começou a se meter em encrencas, e ele teve que ir embora. Há um monte de facetas na minha vida, nem parecia que viriam todas elas juntas. Tem sido uma jornada estranha.”

Em seus anos em Nova Iorque, fazendo “bicos”, “ajudando na comunidade, em programas de álcool e de conscientização das drogas” e sendo a cantora e compositora no circuito de open-mic, Lizzy Grant se reinventou como Lana Del Rey. Mas num sentido em que esta não era tão arqueada no auto-marketing, como suspeitado por seus detratores da Internet, mas como o processo normal, de uma jovem numa auto descoberta. “Não é como se eu estivesse dividida entre duas personalidades. Não há distinção. Nem um pouco. Eu queria um nome que soasse tão bonito quanto a música. Assim como a única razão para eu usar imagens antigas de Hollywood foi porque eu gosto da cor e da textura, não para passar as típicas mensagens subliminares, ou sugerir a glória de décadas passadas. Eu não sinto a necessidade de deslizar para outro mundo ou personagem, porque eu já habito no mesmo mundo e na mesma pessoa há um bom tempo. Estou muito feliz com isso. Qualquer pessoa vai dizer isso.”

Del Rey pode ter sido inventada pela internet, e de certa forma, foi. Ela é criança dos novos tempos e das tecnologias. Ela pegou uma identidade que lhe convinha e descobriu uma maneira de apresentar o seu mundo em música e imagens, compilando clipes de imagens antigas. Ela lançou um álbum independente em 2008, que vendeu tão mal que a gravadora o removeu: “Não havia dinheiro para apoiá-lo, e pensaram que poderiam guardá-lo para uma outra hora.” Ela tinha contado a sua própria história, da sua própria maneira, para uma platéia de si mesma e seus seguidores. E então o mundo a viu, a exaltou, e então, na acelerada mania das novas mídias, a repercussão começou antes que ela mesma tivesse começado.

Está ficando cada vez mais frio na sala em que entrevista progride, como o frio de Nova Iorque que penetra. “Eu sei o que as pessoas pensam sobre mim”, diz Del Rey, puxando seu casaco de camurça em volta dos ombros. “Eu não entendo, eu não vejo por que seja esse o ângulo. E eu sou uma pessoa inteligente. Quer dizer, por que disso?”

O que os traficantes de fofocas e trolls da internet não vem é o efeito de todo esse cyber bullying está a ter sobre a pessoa no seu íntimo. Del Rey fez um disco que merece ser ouvido, mas afirma que não quer fazer uma turnê, não quer sair de Nova Iorque, que ela quer “manter as coisas pequenas. Tudo o que eu queria era fazer algo bonito, e acho que fiz isso.”

Sua aparência nervosa no popular programa de TV americano Saturday Night Live na semana passada levou a um maior abuso da internet. Mas a verdade é, Del Rey está nervosa, e com razão. “Eu não quero falar sobre como eu me sinto, porque eu acho que é desrespeitoso com Deus ir para um lugar escuro com este tipo de coisa. As pessoas só me querem ver sair dos trilhos. Essa é a única razão pela qual eles estão assistindo. Eles só querem ver o que acontece.” Seus críticos questionaram sua autenticidade, mas Del Rey parece demasiado humana. Eu pergunto se ela tem medo de que ela desencadeou. “Você acha que tenho?” Ela pondera, voz trêmula, esfregando a mão nos olhos. “Bem, você até pode estar certo. Mas eu não vou dizer.”

Tradução por Carolina Araújo. – Equipe Lana Del Lovers
Entrevista original por The Telegraph.