Lana Del Lovers

Vogue Austrália | Lana Del Rey: Uma estrela indecisa

A cantora Lana Del Rey transformou uma juventude perdida em uma crônica de amor e luxúria, e agora está em busca de novos rumos, como descobriu Anna Johnson.

A diferença entre imagem e realidade é profunda. Na câmera, Lana Del Rey é remota como uma paisagem no Ártico. Seus olhos apresentam cílios postiços sedosos, a pele brilha como a luz do luar e, quando ela inclina sua cabeça, parece que a Terra se moveu de seu eixo. Em seus vídeos, ela é chocante, vestida como uma mulher sedutora de uma cidade pequena, como Veronica Lake ou como Jackie O. No palco, cantando com sua voz suave e aventureira, ela é igualmente enigmática. Com projeções de um homem colocando o dedo entre seus lábios, você não sabe para onde olhar. E também há suas letras de músicas, como flechas apontadas a uma série de garotos malvados que já estão mortos, desonrados ou que já foram embora há muito tempo.

Esperava que, ao conhecer Del Rey, ela soprasse fumaça de cigarra na minha cara e desviasse o olhar para o horizonte como uma diva gelada em um filme do Andy Warhol: bufante, delineador e tudo mais. Mas ela não fez isso.

No dia de nossa entrevista, ela silenciou os críticos com uma performance elétrica no Enmore Theatre, em Sydney, tinha sido anunciada como a estrela de uma nova campanha da H&M, e juntado mais críticas que toda a obra de Madonna em apenas alguns meses. Algumas críticas de seu álbum de estreia foram, como ela mesma diz, “malvadas”. Depois que seu vídeo amador de Video Games se viralizou no final de 2011, as vendas de álbuns e as críticas vieram rapidamente. Poucas pessoas pareciam acreditar que se poder parecer uma modelo de Bruce Weber e escrever, e cantar… e dirigir.

Encolhida em um sofá com uma almofada de seda debaixo de seu punho delicado em uma suíte de hotel cheia de apliques e pasteis comidos pela metade, Del Rey é direta e conta, relaxadamente, contos sobre sua vida, suas paixões e o conteúdo de seu armário. Ela nasceu Elizabeth Grant, a mais velha de três irmãos, há 27 anos, na cidade de Nova Iorque, e foi criada na rural e calma Lake Placid. Longe e de classe média. Quando tinha 15 anos, Lizzy era uma rebelde em um internato em Connecticut, bebendo muito e, como ela diz, “faminta para ter todas as experiências que todos já haviam tido… correndo, queimando, terrível, terrível… oh”, ela adiciona, com um suspiro, “terrível”. Deus, talvez os caras tatuados em carros velozes tenham sido reais.

E então, aos 18 anos, Del Rey mudou seu nome e parou de beber de vez, se dedicando totalmente a escrever e à música. Para a jovem estrela, esse não é um mero detalhe, mas sim um momento definitivo para seu destino. Estar sóbria nos anos que as garotas estão em cima de saltos-altos quebrados fez Del Rey uma misteriosa observadora de sua própria infância. O que faz sua música tão tocando é sua nostalgia profunda, e o que a faz estranha é que ela canta sobre sua adolescência como uma escrita, e não como uma heroína. Mas Del Rey é tão novelesca quanto incrível. Tanto que cita muito Nabokov e tem seu nome (junto com o de Walt Whitman) tatuado em elegantes letras pequenas em seu punho. “Minhas referências a Nabokov estão em todos os lugares do álbum. Eu não acredito que um escrito tão belo quanto ele tenha existido: o jeito que ele começa Lolita, o jeito que ele descreve uma sala iluminada pela luz do sol, e eu concordo com eles todas as vezes que ele descreve partículas de poeira e lábios vermelhos como cereja e arrepios e peles macias e ele me inspira a nunca ser menos que a melhor e mais visual escritora que eu puder ser.”

Moda não foi central no que ela chama de seu “mundo interior texturizado”. Tendo se formado em metafísica na Fordham University, ela se lembra de usar jaquetas marinheiras, jeans e um laço no cabelo todos os dias. É uma imagem difícil de imaginar, levando em conta o visual atual dela. Bem chique em um vestido curto diurno, com um bracelete de diamante, um pullover de cashmere e descalça, Del Rey ri da memória da época que não tinha estilo. “Eu nunca vesti nada! Eu nunca me expressei através da moda. Eu amava flores no cabelo, amava caras que usavam couro, mas eu não era criativa… Desde os sete anos eu tinha gostos específicos que nunca mudaram. Eu amava vestir branco, pele velha e ouro. É engraçado, porque agora pessoas da moda vieram ao meu socorro quando outras pessoas disseram que não gostaram do meu álbum, mas foi uma surpresa para mim, porque eu nunca fui assim.”

Famosa por seu ruivo Rapunzel, antes de ser um ícone da moda, Del Rey tinha cabelos platinados curtos e um visual que podia ser descrito como Marilyn Monroe vai às lojas Gap. Mas foi nessa mesma grife de Williamsburg, no Brooklyn, que a moda pegou em bandas indie e em cantoras. Foi em Nova Iorque que ela fez suas demos, se apaixonou e fez trabalhos estranhos como pintar casas e fazer mudanças. Ela ocupava seu tempo cantando em bares, gravando seu primeiro álbum e assistindo a filmes antigos, enquanto vivia em um parque de trailers nos arredores da cidade por 18 meses. “Todas as coisas que eu achava que aconteceriam em Nova Iorque aconteceram para mim em Los Angeles. Nova Iorque é difícil, difícil pra cacete.”

Durante esses anos selvagens, Del Rey, como não sabem seus críticos, trabalhou em reabilitações de drogados e alcoólatras e com desabrigados, fatos que a levaram à humildade. Ela está cercada de facilidades, mas não age como uma diva. Na verdade, ela mata a maioria dos clichês sobre beleza. Não é nada rock-star fazer reabilitação antes de ser famosos. Com suas mãos delicadas pousadas em seu colo, ela reflete quietamente: “Eu me sinto vivo há tanto, tanto tempo. Para mim, quando eu costumava beber, isso era minha paixão. Eu só amava isso. Desisti disso há uma década, e quando você desiste das coisas que estão mais perto de você, você tem que se tornar responsável. Quando parei de beber, decidi que viveria 100% honestamente, sem mentir, sempre vivendo corretamente, fazendo as coisas certas. E, para fazer isso, você tem que crescer muito rapidamente. Não tenho filtros. Se eu estou assustada ou me sentindo estranha ou alguém na família está morrendo, não tem alívio. É um jeito diferente de viver.”

Ela admite ter medo de palcos. “Eu amo criar as músicas — me sinto em casa — mas, quando vou ao palco, não estou no meu elemento. Às vezes me ajoelho porque estou tremendo e toco o público porque não sei o que fazer. Mas o legal dos fãs é que eles se sentem mal por mim, e me dão bichinhos de pelúcia!” Essa vulnerabilidade contrasta com sua persona que aparece nas telas, quando ela está seduzindo e nadando com crocodilos.

E então vem o sexo. A pimenta às vezes vem em maior quantidade que o açúcar nas músicas de Lana Del Rey. Com ela sentada no sofá falando tão quietamente, parece nada educado perguntar porque muitas de suas músicas são sobre os homens sendo os chefes, deixando ela no chão, beijando forte antes de sair fora. É uma ironia pós-feminista, essa dominação retro macho-alfa? Del Rey lança um olhar sem piscar: “Não tem nada irônico aí.” Depois de uma pausa: “Não é sobre submissão de uma forma negativa, é sobre deixar alguém tomar conta de você, e eu amo esse sentimento, porque estou no comando de tudo que faço na minha carreira, então gosto da ideia de alguém vir e me fazer sentir que eu não tenho que fazer tudo.”

Para Del Rey, amor, sexualidade e emoção são onde a liberdade mora. Sem entrar em detalhes, ela deixa claro que o dever nunca está longe: “Eu tomei conta de pessoas à minha volta durante toda minha vida… Eu fazia parte de minha família como todos os outros membros dela, como a mais velha, e você acaba achando seu papel.” Esse pensamento, vindo de uma pop star com vendas de multiplatinadas parece quase excêntrico. Então eu pergunto a ela: como é ser famosa?

Ela ri como seu eu estive falando de outra pessoa. “Nos últimos três anos eu viajei para cidades diferentes a cada quarenta horas. Eu não vou para casa há muito tempo. Ela coloca tudo que ama em apenas uma mala e, como uma forma de se retratar, me deixar olhar as roupas que já vi em fotos de paparazzi. Segurando uma peça sem alças, ela ri e diz: “Eu tenho esses sutiãs gigantes que eu uso para ter formas no palco.” Vejo tênis e sapatilhas bem menininha. “Eu uso muitas camisas brancas e azuis da Brooks Brothers e shorts quando estou em Los Angeles, e uso esse vestido branco de algodão todo dia quando não tem ninguém olhando. Acho que é da Topshop. E tenho que dormir sozinha todas as noites, então tenho essa pele velha da Escócia.” Del Rey me deixa tocar seu casaco tom de mel e vintage e por um breve segundo eu a imagino o usando como o pijama mais bizarro do mundo, comendo bolo em cima da cama.

Com ombros quadrados e quadris estreitos, a figura dela é impecável, apesar de afirmar que não pratica esportes e admitir que come espaguete e bolo de chocolate “todo dia desde que tinha sete anos”. Claramente, é criatividade pura que queima essas calorias enquanto ela cria os temas de seus ensaios fotográficos e vídeos (uma cópia de A Place in the Sun, de Slim Aaron, está com ela em todos os lugares e foi a inspiração para o vídeo de National Anthem). A maioria das vídeo montagens que ela faz montam um tipo de scrapbook das coisas que ela ama, e seu jeito de selecionar as imagens é livre e intuitivo: “Sei que minhas colagens podem ser mal interpretadas como se eu fosse uma verdadeira aficionada pelos anos 50, mas eu sou uma pessoal muito visual. Ver os Kennedy na tela me faz sorrir.”

Muitos aspectos da vida de Del Rey parecem cinematográficos, desde seu cabelo alto até o fato de que ela escreve todas as suas músicas no Chateau Marmont. Como uma estrela de filme mudo, ela tem residência permanente no famoso hotel de Hollywood porque, como ela diz, “é o único lugar que restou!” O Marmont é uma fusão de decoração glamour antiga e rock, mas, diferentemente de Jim Morrison, ela não dançará na janela da Sunset Boulevard tão cedo; é mais fácil encontrá-la em sua mesa, escrevendo.

Filmes, não o panteão do pop, é para onde essa criatura sensível está se dirigindo, porque fazer turnês é difícil, possivelmente porque imagem e cabelos perfeitos estão “saindo do controle”, e definitivamente porque a música (e não performances e fama) é sua primeira paixão.

O projeto pelo qual Del Rey está mais animada no momento é a trilha sonora de um filme. No final de nossa entrevista, ela toca para mim uma música na qual está trabalhando em seu Mac, que tem uma tela meio quebrada. Primeiro vem um voz solitária, cantando as palavras de sua própria melodia. Enquanto ouvimos, ela canta junto. A próxima faixa é acompanhada de camadas de música orquestrada que parecem vozes de criança, ou o som do vento. Quando ela manda uma música para seu compositor, Daniel Heath, ela adiciona notas sobre tudo: cores, estações, detalhes do enredo, e obviamente o método está funcionando. O som de sua voz nas cordas é tão etéreo que me faz querer chorar.

Em uma entrevista anterior, Del Rey deu a dica de que não queria continuar fazendo hits e de que o Born To Die estava mais para um resumo do que para um primeiro capítulo. Talvez seus fãs não queiram encarar, mas essa estrela está indecisa entra honrar seu dom para o glamour e ser a pensadora sozinha com palavras e melodias.

“Eu disse tudo que precisa antes de escrever esse disco. Eu nem falo tanto assim. Deus, o que falei em entrevistas é mais do que falei em anos. Quando estava começando, objetivava escrever para filmes e é isso que estou fazendo agora. Estou muito feliz. Espero entrar na produção de filmes e ficar aí. Será minha zona de conforto. Eu queria ficar em apenas um lugar por um bom tempo.”

Nesse mês, esse lugar é sua suíte no Chateau Marmont, com sua porta trancada e livros jogados em cima dela. Mas, quando ela vai embora, não dá pra não torcer por ela, de maneiras estranhas. Comendo seu bolo de chocolate vestindo nada além de seu casaco de pele vintage — e o comendo também.

Tradução por  Equipe Lana Del Rey Web
Entrevista original por Vogue Austrália.