Lana Del Lovers
Lana Del Rey - S Moda (Simon Emmett - 2012)

S Moda: Lana Del Rey fala sobre moda, autenticidade, ‘Saturday Night Live’ e muito mais

E entrevista concedida à revista S Moda do jornal espanhol El País, Lana Del Rey falou sobre moda, sua músicas, amigos, autenticidade, Saturday Night Live e muito mais. Leia abaixo a tradução da entrevista:

Mae Murray (1885-1965) foi uma atriz de cinema conhecida nos anos 20 por seus lábios voluptuosos, como se fossem “picados por uma abelha”, como referido na expressão em inglês bee-stung lips. Atriz, cantora, colunista e produtora, na verdade, é mais conhecida como “escaladora” social. Casou-se quatro vezes, sendo a última com David Mdivani, um georgiano que passava-se por príncipe e que a arruinou. Passou seus últimos anos arrastando-se pelas discotecas, cada vez mais escondida sob espessas camadas de maquiagem e morreu na pobreza absoluta.

O fotógrafo inglês Simon Emmett, responsável pelas fotografias desta reportagem, conta para Lana Del Rey sobre a vida de Murray e a mostra uma gravação colorida em película onde a atriz sensualiza, mais letárgica do que lúbrica, e joga um beijo para a câmera. Emmett foi bem sucedido. O vídeo não poderia ser mais Lana. E a cantora se entusiasma. “Sou eu, sou eu”, ela exclama, com aquela voz rouca que se instala na cabeça de todos que ouvem a canção Video Games pela primeira vez.

Parece uma questão de tempo até que Murray apareça em das canções ou videoclipes de Lana. Pois a artista, nascida Elizabeth Woolridge Grant há 25 anos, dá a impressão de agir 24 horas por dia como diretora criativa de si mesma: Diretora Executiva da Lana Del Rey Enterprises.

Em menos de um ano, protagonizou o salto à fama mais vertiginoso que se tem memória, uma fábula contemporânea transmitida em tempo real no YouTube, tuítes, virais e comentários online.

É difícil de acreditar que esta pequena e amigável mulher, vestindo calça jeans, camiseta de alças e calçando mocassins, e que sua equipe parece adorar, gera tanto burburinho. Del Rey passou menos de dois dias em Barcelona, Espanha, mas irá retornar em 15 de junho para se apresentar no festival Sónar. Aproveitou para visitar o parque de diversões Tibidabo. Muito Lana, com suas estátuas lascadas e atrações antigas.

Outras coisas que são muito ela: os anos 20, 40 e 60, Mulholland Drive (Cidade dos Sonhos, 2001), bandeira dos Estados Unidos, Elvis Presley, hip-hop, Mazzy Star, Miami, o ouro, os cílios postiços, as piscinas de Los Angeles e unhas extra longas. Tudo junto forma uma estética neonostálgica que parece estar através de um filtro de Instagram. Não é por acaso que sua subida meteórica para a fama coincidiu com o surgimento desta rede social de antigas fotografias instantâneas, calculadamente cool.

O pop foi e é falso, por definição — é até quando ele quer ser o epítome do honesto, como o caso de Adele, o reverso de Lana Del Rey em matéria desses tipos de fenômenos musicais. No entanto, a cantora prossegue no debate da autenticidade. Os fóruns questionam o que faz os seus vídeos, se seus lábios são reais, se é ou não verdade que Lana viveu em um parque de trailers, se seu pai é um milionário e se seu nome é ou não autêntico.

A crítica do The New Yorker, Sasha Frere-Jones, escreveu que as letras de Lana Del Rey parecem vir “de um post-it em uma reunião de departamento de marketing”. Certo. E não apenas as letras, mas também as definições que ela mesma faz, perfeitas para uma manchete: “gângster Nancy Sinatra”, “Lolita perdida na vizinhança”. Mas também é possível que o seu departamento de marketing tenha um só membro, que é a própria Lana Del Rey. É possível vê-la escolher qual roupa ela está disposta a usar (“Só pele e pássaro para a capa”, disse, apaixonada pelo cordão de porcelana do designer espanhol Andrés Gallardo) e falar usando conceitos como fazem os publicitários — “Quero ser muito princesa morta de Mônaco” —, há poucas dúvidas. Pode ser que Lana Del Rey seja um produto — e daí se for? —, mas ela também é o seu próprio Doutor Frankenstein.

Você gosta de moda?

Eu não tenho uma relação com a moda como a relação com a cultura visual. Nesta sessão fotográfica eu pensei: sem os saltos, joias, isto é apenas eu e o céu azul no fundo. Essas são as coisas que me inspiram, fotógrafos e filmes. Nas minhas letras e no meu som, me atraio mais pela imagem do que pela música.

Onde você mora agora?

Bom, olha, pensava que nunca deixaria Nova Iorque, mas agora cada vez que eu volto para os EUA, vejo que me encanto pela Califórnia. Tenho uma casa de campo no hotel Chateau Marmont, em Los Angeles, e agora um amigo vai me ajudar a encontrar uma casa em Hollywood.

Como você lida com o vai e vem?

Alguns dias são melhores que outros. Antes de tudo isso, eu estava muito feliz. Estava muito envolvida em minha comunidade, tinha pessoas ao redor, podia ver a minha família muitas vezes. À noite, escrevia canções e tinha um bom tempo. E agora… Há todas aquelas pessoas lá fora! [Ela se refere a fotógrafos, maquiadores, estilistas, assistentes e pessoal envolvido na sessão de gravação]. Eu não gosto muito de algumas coisas como eu gostava antes.

Então, quando escrevia essas canções à noite, não tinha a intenção de alcançar um grande público?

Não, não sou esse tipo de pessoa. Eu estava feliz escrevendo canções e não queria mais. Só ter dinheiro o suficiente para pagar o aluguel e os impostos. Eu não tinha grandes ambições.

Você tem tempo para os amigos verdadeiros?

Eu tenho um pequeno grupo de amigos e não tem nada a ver com música. Minhas amigas são boas meninas, pés no chão. Uma trabalha no setor imobiliário, outra na loja de departamentos Bloomingdale’s, outra é chefe de marketing… Eu sinto falta deles.

Todas as suas letras são escritas em primeira pessoa. Você acha que isso gera confusão ou curiosidade sobre você?

Elas são todas reais. Eu sou a protagonista de todas as minhas letras. Mas eu não acho que elas são tão controversas. Contam como as coisas têm corrido para mim. Saí de casa aos 14 anos para ir para a um internato porque eu tinha ficado em apuros. Então eu vim para Nova Iorque… Olha, Video Games é apenas um dia na minha vida. As pessoas dizem que é uma canção anti-feminista e eu me pergunto o porquê. Eu estudei e eu me sustentei. No final do dia eu só queria ficar em casa com meu namorado e jogar videogame.

Você se importa de ser chamada de anti-feminista?

Não é uma das coisas que mais me irritam. E talvez tenha algo verdadeiro nisso. Eu sou uma garota difícil e eu gosto de um homem que é forte em todos os sentidos. Pode dizer que eu incito os homens a mostrar-se poderosos comigo. Eu faço muitas coisas, trabalho duro e controlo tudo. Então, no final, o que eu quero é ter alguém para me ajudar a sentir-me delicada e sexy novamente.

Você lê tudo o que é publicado sobre você? Porque isso é quase um trabalho em tempo integral.

A princípio, sim, porque nunca ninguém tinha escrito sobre mim e me afetava. Eu tinha passado os últimos 10 anos tentando ser uma boa pessoa. Eu parei de beber, tinha um bom relacionamento com a minha família… Quando começaram a misturar a minha família em tudo isso, eu me indignei. Eu aprendi que tudo o que a imprensa diz pode ser uma mentira.

Como quando te acusam de ser um produto artificial…

Isso é mau jornalismo e mau comportamento. Deveria ser ilegal. Tudo o que esses jornalistas tinham que fazer, era falar com alguns dos meus conhecidos. Qualquer um diria que tudo o que eu fiz, eu fiz sozinha. Eu escrevi as músicas, eu dirigi os vídeos. E em relação ao meu nome, eu comecei com o meu nome verdadeiro, mas no palco eu sempre atuei com um diferente. Todo mundo faz isso.

E por que você acha que foi gerado ao seu redor o debate sobre o que é autêntico e o que não é?

Eu não sei, não há nada mais autêntico do que eu. Entenderia se questionassem alguém que diz escrever as suas canções sem escrevê-las de fato, ou alguém que diz que seu passado foi de uma determinada maneira quando isso é uma mentira. Mas não a mim.

Você gosta de estar no palco?

Agora eu comecei a desfrutar. Quando estou em Paris ou na Itália, eu fico bem. Quando estou em Hollywood, também, porque a imprensa de Los Angeles me entende, sabe que eu não estou tentando vender uma mensagem. Apenas canto. Mas há outros lugares que a crítica não me entende. Pessoas com olhos normais te olham e buscam alguém como eles, e eu não sou assim. Eu faço o que eu quero.

Você sempre se sentiu diferente?

Sim sempre. Por isso eu queria estudar filosofia. Eu fui oprimida pelo mundo e eu alucinava com as coisas que preocupavam outras pessoas: “O que vamos fazer hoje?”, “Onde vamos passar as férias?”, “Você gosta dos meus sapatos?” Eu, no entanto, estive sempre à procura de um guia, um sinal, um poder superior.

Difícil encontrá-lo em sua cidade natal, Lake Placid. É muito pequena, tem apenas 2 mil habitantes. Não há nenhuma grande cidade nas proximidades. Imagino que seja algo como Twin Peaks.

Sim, é exatamente como Twin Peaks. Eu estava ansiosa para sair de lá e chegar a Nova Iorque porque eu me senti como no céu. Eu gosto de ir para a loja da esquina e um homem dizer [em espanhol]: “Olá linda, como você está?”.

O que aconteceu no Saturday Night Live? Como você lidou com as críticas ao seu desempenho?

Eu esperava isso. O que a gente não sabe, é que antes de nos apresentarmos, o website já criticou tudo o que fazíamos. Quando cheguei a esse estágio, eu sabia exatamente o que eles diziam sobre mim.

Para ser o álbum clássico de revelação sentimental, em seu primeiro disco, Born To Die, não há arrependimentos. Ao invés disso, há melancolia.

Naquela época, falar de amor me fez me sentir viva novamente. Contei com essa pessoa para me estruturar, mas na verdade, fala de mais coisas: dirigir à noite na Califórnia, a tristeza que o verão dá as vezes…

É verdade que você escreveu a canção Video Games em 10 minutos?

Não, não, ela foi surgindo aos poucos. Estava compondo canções durante cinco dias com um dos meus melhores amigos, Justin Parker, que fez os acordes. Tivemos assim como quando ele disse, “Eu tenho uma progressão que me lembra você.” Eu amei o início e o refrão. Isto é como eu imagino que esse paraíso seja.

Quando seu segundo álbum for produzido, você falará do que trouxe fama para você?

Não, eu vou retomar tudo de onde deixei. Estou começando a escrever novas músicas. Eu tenho uma nova música que eu amo. [Ela canta alguns versos: “Na terra dos deuses e anjos, eu era um monstro”]. Quando a fiz, eu pensei: “Deus, isso me remete a Leonard Cohen!”

Cohen é um dos seus artistas favoritos?

Gosto de imaginar Leonard Cohen e Bob Dylan juntos. Me faz feliz. Na minha lista de favoritos, também estão Elvis Presley, Frank Sinatra, Nirvana, Lil Wayne, Eminem e Odd Future. Não há mulheres… Não, mas eu não estou contra.

O que você acha de divas do mainstream, como Beyoncé, Rihanna…?

Nunca comento o assunto. É difícil para mim, tudo o que eu digo é interpretado fora do contexto. Uma pena você me fazer essa pergunta! A entrevista estava indo tão bem até agora…

Tradução por Beatriz Nascimento e Thiago Goedert. – Equipe Lana Del Lovers.
Entrevista original por S Moda.